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Cultura » É Tudo Verdade?

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Luiz Carlos Merten

24 Março 2007 | 14h38

Vou acrescentar só mais um ou dois posts porque meu dia está corrido, hoje, e eu ainda quero cortar o cabelo e correr ao CCBB para ver Hércules 56, do Sílvio Da-Rin, que será seguido de debate com o diretor, mediado pela Neuza Barbosa, após a exibição, às 16 horas. Conversei agora de manhã com dois diretores que participam do É Tudo Verdade. Um é gaúcho, radicado em São Paulo, Cristiano Burlan, que abriu ontem a competição brasileira do Festival Internacional de Documentários com Construção. O outro foi Sérgio Oksman, o diretor de Adeus, América, sobre o qual (o filme) já falei ontem. Assisti a Construção ao lado do Marcelo Lyra e até brinquei com ele – quem foi que disse que cinema é imagem? Cristiano começa seu filme com a tela escura e uma superposição de sons que remetem a uma obra (casa ou prédio) que sendo construída. Não havia assistido aos trabalhos anteriores do diretor e, confesso, que demorei um pouco para me situar dentro do filme dele. Se tivesse visto os outros, talvez já estivesse preparado para o fato de que Cristiano prescinde de palavras, quero dizer, de diálogos. Após as exibição, Cristiano disse que, para ele, tudo começa na forma, mas eu tenho minhas dúvidas, conforma lhe disse. Ele não é um formalista típico. Pegue a montagem do Eisenstein em O Encouraçado Potemkin, a cena dos barcos saudando o encouraçado, por exemplo. A montagem obedece a uma cadência, a um ritmo, a uma concepção, ou conceito, que nasce da justaposição de formas muito próximas. Construção não tem nada disso e eu meio que me desnorteei até perceber que Cristiano foge ao retrato tradicional (sociológico) do operário da construção civil. Mais do que na forma, ele trabalha seu filme no tempo, construindo uma dinâmica (ia dizer uma teoria) do trabalho. Não falta nem mesmo a pausa do almoço, quando ele meio que desaparece – depois, o diretor explicou que acha complicado filmar um momento tão íntimo quanto o da refeição, deixando aberta uma janela para o debate sobre a ética no documentário, que é o tema da conferência deste ano, que começa terça no Itaú Cultural, como sempre com coordenação da professora Dora Mourão, parceira do Amir Labaki, criador do evento, dentro dessa importante parte do É Tudo Verdade. Não basta exibir os filmes, é preciso discuti-los. Construção me intrigou, mas me deixou meio frio, o que não me impediu de lamentar que tanta gente tenha deixado o CineSesc, de certo angustiada pela falta de diálogos ou de ‘uma história’. A história até que existe. Há uma linearidade na maneira de enfocar o tema, mas ela não obedece aos princípios aristotélicos da narração clássica, e isso confunde muita gente. O único momento em que o filme me tocou, de fato, foi quando Cristiano, filho de pedreiro – e ele próprio já foi pedreiro e metalúrgico -, filma os operários que olham para a câmera. É uma coisa que sempre me intriga. Só os atores mais profissionais sustentam olhar para a câmera de maneira prolongada. As pessoas, em geral, se sentem acuadas pelo olho da câmera, olham fixo por alguns segundos, mas logo buscam socorro, olhando para os lados. Acho isso muito interessante. Vulnerabiliza quem está sendo filmado e tem a ver com o que pensa o Cristiano, que não acredita no real, no cinema. Para ele, ligou a câmera, cortou, montou e está sacramentado o artifício. É uma concepção polêmica, mas que vale discutir, por isso a interrogação que coloquei no título do post. É, um pouco, o tema de meu livro Cinema – Entre a Realidade e o Artifício, bastante centrado em Moulin Rouge – e o fotógrafo do Baz Luhrmann estará na semana que vem em São Paulo. Chega, é outra história, não vamos misturar as coisas. Não sei se Construção ainda terá novas exibições, só quero dizer mais uma coisa. Quando conversei com ele, hoje, Cristiano me disse que seu ídolo é Robert Bresson e eu até disse que, claro, era evidente, dava para ver, desde a abertura de seu filme, mesmo que seja a negação de Bresson. Jean Tulard, em seu Dicionário de Cinema, diz que o sonho de Bresson é a tela branca e uma voz monocórdica recitando Descartes. A tela de Cristiano Burlan não é branca e o som é caótico, não monocórdico (e muito menos cartesiano). Sobre Adeus, América o filme não terá novas exibições em São Paulo (só no Rio) e eu não vou me furar no Caderno 2. Aguardema entrevista com ele. De qualquer maneira, acho que esses distribuidores independentes – André Sturm, da Pandora; Jean-Thomas, da Imovision; o povo da Europa – só teriam a ganhar trazendo o filme de Sérgio Oksman, diretor brasileiro radicado na Espanha, para as telas do País. Se Uma Verdade inconveniente, com o Al Gore, fez tanto sucesso, por que não o outro Al, o Lewis? Achei melhor, confesso.

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