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Luiz Carlos Merten

27 Março 2009 | 12h22

RIO – Conversava com Maria Ribeiro no fim da sessão de ‘Domingos’ e ela me aprresentou sua prima, mulher de José Padilha, e também a mãe do diretor de ‘Garapa’, outro destaque do 14º É Tudo Verdade. De repente, fiquei cercado pela família Padilha, falando sobre seu filme, que é duro, difícil, mas importante e necessário. Não sei se cheguei a contar a história. Em Berlim, houve um debate após a exibição de ‘Garapa’. Padilha mostra aquelas imagens de famílias inteiras devastadas pela fome. É uma miséria social perturbadora, mas há também outra miséria, mais perturbadora ainda, e é existencial. Aquela gente toma água com açúcar para iludir a fome, mas homens e mulheres não dispensam o cigarrinho nem a cachacinha, mesmo que isso signifique desviar os únicos recursos que deveriam estar sendo canalizados para dar leitinho às crianças. É a miséria mais radical, a cultural, porque a fome se perpetua e, com ela, suas consequências. A ausência de nutrientes impede o desenvolvimento cerebral. Sucedem-se gerações de baixo Q.I. A história que quero contar é que, em Berlim, um daqueles alemães perguntou o que Padilha queria com seu filme. É dinheiro? Se fosse, ele dava todo o dinheiro que tinha para algum fundo de assistência às vítimas da fome no Nordeste (embora ‘Garapa’ deixe claro que o problema não é só brasileiro). A culpa do cara me fez lembrar a exasperação de Mrs. Moore em ‘Passagem para a Índia’, de David Lean. Leva o meu dinheiro, mas me priva de ter de ficar vendo isso. ‘Garapa’ é tudo, menos agradável de ver. E é muito diferente de ‘Domingos’, como ‘Tropa de Elite’ é diferente de ‘Juventude’, para ficar num Domingos Oliveira recente. Essa diversidade do próprio documentário é um dos temas importantes de discussão em 2009. O documentário engajado, característico dos anos de chumbo do combate ao terror pós-11 de Setembro, com George W. Bush na pele do Grande Satã, está terminando e ainda não sabemos o que vem na era Obama, que é de esperança, mas decolou com essa crise econômica horrorosa. Como vestígio de documentário engajado, acho que ainda temos preciosidades que vocês não podem perder na 14ª edição, mas a discussão já está voltada para o futuro. De qualguma forma isso já está no documentário vencedor do Oscar deste ano,. ‘O Equilibrista’, Man on Wire. Se a deastruição das torres gêmeas virou apresentação dessa eras de terror, o filme busca uma imagem passada, recupera as torres como eram para contar uma outra história, de restauração. Avi Mograbi chega na segunda, dia 30, para mostrar ‘Z32’ e o filme é muito forte como discussão sobre o que é ser soldado em Israel. Mograbi discute se o Exército israelense é mesmo ético, como diz seu ministro. A operação de represália, o assassinato a sangue frio de palestinos, tudo isso aponta para outra coisa – um desejo de vingança ou de acerto de contas que é mais coisa de mafiosos do que de um Estado de direito, como me disse o diretor, na entrevista que me deu (e que foi capa de anteontem do ‘Caderno 2’). Mais dois nacionais também devem ficar na mira, e são obras que favorecem a discussão política – ‘Corumbiara’, cujo diretor eu não me lembro quem é (sorry!), mas traz novo olhar sobre a questão indígena, somando-se a ‘Serras da Desordem’ e ‘Terra Vermelha’, e ‘Cidadão Boilesen’, de Chaim Litewski, que pega o caso desse empresário dinamarquês para discutir o apoio que lideranças da indústria e do comércio deram à repressão, nos mais duros anos da ditadura militar. Como diz Amir Labaki, o É Tudo Verdade é o único grande festival brasileiro que ocorre simultaneamente em duas capitais, São Paulo e Rio, e tem entrada grátis em todas as sessões. O que você está esperando?