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E Stéphane está no meu panteão, com os maiores filmes de Chabrol

Luiz Carlos Merten

28 Março 2018 | 16h53

Minha terça-feira foi muito intensa. Começou às 6 da manhã com a entrevista, por telefone, de Juliette Binoche. Depois, fui ver aquele horroroso Fenda no Tempo, que emendei com outra entrevista – Lucrecia Martel. A todas essas, com textos e filmes, nem tive tempo de enterrar Stéphane Audran. Estrou escrevendo esse texto como nova matéria, para depois colar no blog. É incrível. Muitas vezes sou estrangeiro no meu blog, que não me reconhece a senha – e não me autoriza a entrada. Estou num desses momentos. Eventualmente vou terminar colando/validando o texto sobre Stéphane. Ela participou de grandes filmes que receberam o Oscar. Luís Buñuel, com certeza, O Discreto Charme da Burguesia. Gabriel Axel, A Festa de Babette. Filmou com Sam Fuller, como é mesmo que se chamava Dead Pidgeon on Beethovenstrasse? Acho que Em Ritmo de Assassinato. Mas Stéphane foi principalmente a mulher de Claude Chabrol, entre 1964 e 80. Fizeram uma vintena de filmes, entre eles as obras-primas de Claude – Les Bonnes Femmes, A Mulher Infiel, O Açougueiro. Entrevistei Chabrol algumas vezes – três, para ser exato. Stéphane, nenhuma. Soube que ela vivia reclusa, adquirira fama de excêntrica, para não dizer ‘folle’. Chabrol morreu em setembro de 2010, no dia do meu aniversário – 12. Cahiers dedicou-lhe uma edição. Connaissez-vous, Chabrol?, com análises críticas e entrevistas de amigos e colaboradores. As mulheres de Chabrol. Bernadette Laffont, sua primeira estrela, Stephane. Terminei entrevistando Bernadette em meados de 2013, um mês antes de sua morte. Bernadette talvez tenha sido a primeira estrela de Chabrol (e da nouvelle vague). Era casada com Gérard Blain, a quem o crítico François Truffauit elogiara por seu papel em Voici le Temps des Assassins. Gérard foi agradecer o elogio, tornou-se amigo de Truffaut, que o apresentou a Chabrol. Stephane era amiga de Gérard Blain, que, por sua vez, a apresentou a Claude. Ela queria fazer teatro, mas Gérard, que havia acabado de fazer Le Beau Serge, aconselhou-a a procurar Chabrol, que ia iniciar novo filme, e seria Os Primos. Na edição especial de Cahiers, Stéphane conta que encontrou Chabrol num café da Rue Washington, muito frequentado pelo pessoal da nouvelle vague. Chabroil jogava fliperama, conversaram rapidamente. Sim, ele teria um papel para ela. Em Os Primos, Stéphane abre a porta para Gérard Blain e anuncia para Jean-Claude Brialy – ‘Paul, c’est ton cousin.’ Foi o início de uma longa colaboração, que continuou na cama, e sobreviveu ao fim do casamento. Seu último filme juntos foi Betty, de 1992 – 12 anos após a separação. Nunca entrevistei Manoel Carlos, mas com certeza lhe teria perguntado se suas Helenas, o nome das protagonistas de suas novelas, era alguma homenagem a Chabrol, e a Stéphane. Em 1961, em L’Oeil du Malin, ela fez sua primeira Helena com Chabrol. Vieram outras – em Uma Mulher Infiel, O Açougueiro, Trágica Separação, Juste Avant la Nuit, etc. Tenho de admitir que gosto muito, mas pontualmente, de François Truffaut – Jules e Jim, O Garoto Selvagem. Não sou louco de não reconhecer a importância de Jean-Luc Godard (Viver a Vida, O Desprezo, A Chinesa) e Eric Rohmer (Minha Noite com Ela), mas amar mesmo, da nouvelle vague, só Chabrol. No biênio 1968/69, ele fez três filmes que estão no meu panteão – A Mulher Infiel, A Besta Deve Morrer e O Açougueiro. Stéphane é sublime no primeiro e no terceiro – ao descobrir que o marido matou seu amante (La Femme Infidèle), e como a professora Hélène, ao descobrir que Jean Yanne é o assassino de crianças que está aterrorizando a região. Stephane é genial, com Michel Piccoli, em Amantes Inseparáveis/Les Noces Rouges. Ambos representam num registro excessivo (trop) que joga o filme na sátira. Na entrevista em Cahiers, Stéphane conta que havia terminado de fazer O Discreto Charme e que Buñuel a colocara, com todo o seu elenco, em situações tão incríveis que talvez tenha sido difícil, senão impossível, voltar ao que o senso comum chama de ‘normalidade’. Stéphane Audran morreu, pacificamente – informou o filho, Thomas Chabrol -, às 2 da manhã de terça, 27. Tinha 85 anos e uma carreira que deveria ter lhe valido muito mais reconhecimento que teve.