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E Romero, mestre do horror político, morreu pacificamente, ouvindo trilha… de John Ford!

Luiz Carlos Merten

16 Julho 2017 | 23h37

Tento me lembrar exatamente quando foi. Anos atrás, George A. Romero deu uma master class na Fnac da Rue d’Antibes, durante o Festival de Cannes. Se a Croisette é a Rambla de Cannes, a Rue d’Antibes é a Paulista, ou Rua da Praia, sem praia, de lá. A Rue d’Antibes ficou travada. George A. Romero! E lá estava eu, ouvindo o mestre falar e depois lhe apertando a mão. O que disse não foi exatamente novidade para mim. Terá sido para alguém? Hoje em dia, todo mundo fica repetindo que Romero formatou os mortos vivos modernos e, conceitualmente, é o pai de Walking Dead, mas na verdade o que ele criou foi o horror político. A Noite dos Mortos Vivos, de 1968, metaforiza a luta por direitos civis na ‘América’ dos anos 1960. Depois, a cada cinco, dez ou mais anos, Romero sempre voltava a seus zumbis para dar conta das mudanças na sociedade dos EUA. The Hungry Wives, de 1973, é sobre o feminismo, mas não é bem do ciclo; Despertar dos Mortos, de 1978, é sobre o obscurantismo da América profunda – o líder de uma seita traz de volta a filha de um casal e a garota, como morta-viva, contamina o mundo; Dia dos Mortos, de 1986, é sobre como Exército e ciência multiplicam os zumbis; Terra dos Mortos, de 2005, é sobre o muro que, no planeta controlado por zumbis, separa ricos e pobres, Norte e Sul etc. Romero também incursionou pelo cinema de vampiros, mas Martin, de 1977, é mais uma sátira social. Garoto que acha que é vampiro provoca banhos de sangue ao substituir os caninos desenvolvidos (que não têm) por laminas de barbear. E ele ainda vira celebridade ao participar do late show na rádio da cidade em que vive – há 40 anos! Romero, além de tudo, era visionário. Em 1990, associou-se ao mestre italiano do giallo, Dario Argento, para uma experiência conjunta. Due Occhi Diabolici, Dois Olhos Satânicos no Brasil. O episódio de Romero chamava-se O Caso do Sr. Valdemar, livremente adaptado de Edgar Allan Poe. O Sr. Valdemar é morto pela mulher e pelo amante dela, seu médico. Ambos querem se apossar da fortuna, mas ele morre antes que o testamento seja validado. O casal diabólico o coloca no freezer e eu nem lembro mais como Valdemar escapava – tinha a ver com o fato de ele ter sido hipnotizado e haver morrido sem voltar do transe -, mas a verdade é, congelado, e morto-vivo, o marido corno caçava seus assassinos. Irado! Dan O’Bannon e Zach Snyder não deixam de ser crias de Romero, o primeiro com o divertido O Retorno dos Mortos-Vivos, em que zumbis produzidos pela poluição se alimentam de cérebros humanos (‘Brains, brains!’) e o segundo com Madrugada dos Mortos, que passou em Cannes e eu, particularmente, considero o melhor filme de mortos-vivos que Romero não realizou. Os zumbis tentam invadir o shopping. O consumismo – o mercado – em xeque e em choque. Adoro esses caras. A família informou que Romero morreu neste domingo, 16, após uma severa batalha contra o câncer (de pulmão). As últimas fotos o mostram bastante debilitado. E olhem a singeleza. Já evoquei hoje, no post anterior, Hank Worden, John Wayne – e John Ford. Romero, mestre do horror e da violência, morreu – informou a família – pacificamente, ouvindo sua trilha favorita. E qual era? A do clássico fordiano Depois do Vendaval/The Quiet Man, de 1952.