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E quem eh o realizador?

Luiz Carlos Merten

21 Maio 2012 | 16h19

CANNES – Estou ateh agora tentando entender como o novo Abbas Kiarostami, que comeca taoh bem, pode terminar taoh mal. Like Someone in Love, a aventura japonesa do autor iraniano, eh sobre uma duble de estudante e garota de programa. Kiarostami comeca o filme num bar. Filma uma mesa com tres pessoas, uma barulheira do caoh e uma mulher que, presumivelmente, estah falando ao telefone. Ela naoh integra o trio na mesa e o espectador se perguntan – onde raios estah essa mulher? O plano eh longo, ela estah fora de quadro e o artificio para coloca-la dentro da imagem eh de genio. Comecei a gostar, mas depois meu entusiasmo foi arrefecendo. Mesmo assim, o filme tem outra cena genial. A garota se liga a um cliente mais velho e tem um pretendente, um jovem bruto, bom de luta. O garoto pensa que o velho eh avoh da jovem. Conversa com ele dentro do carro, uma conversa genial, e genialmente filmada (lembram-se de Ten?). E aih, Kiarostami, depois de criar uma expectativa e sem saber como terminar sua historia, promove uma estapafurdia manifestacaoh de violencia. Eu confesso que achei bem decepcionante, mas sustento que o comeco eh bom. Cannes 2012 estah criando essa categoria, a dos filmes que terminam mal. O novo Thomas Vinterberg, The Chase, Kiarostami… Inversamente, hah os que comecam muito bem. Kiarostami (de novo), Michael Haneke. O diretor de A Fita Branca comeca Amor mostrando Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva no teatro, para um concerto (de piano, claro). Ele coloca a camera no palco e eh muito interessante como, sem corte nem plano de detalhe, leva o olho do espectador para seu casal de velhos na plateia. Amour eh dos bons filmes que vi ateh agora, mas confesso que me encantei foi com Alain Resnais. Vous n`Avez Encore Rien Vu. E eu, pelo menos, nunca vi nada parecido. Na abertura do filme, Lambert Wilson, Sabine Azema, Pierre Arditi, Anne Duperey etc, como eles mesmos, recebem telefonema convidando para o oficio funebre de um diretor de teatro. Eh um artificio para reuni-los e o filme eh cheio de artificios. O diretor deixou uma mensagem gravada. Quer que eles vejam cenas da remontagem de um de seus exitos, Euridice, feita por um grupo de jovens, deixando na maoh do grupo a autorizacaoh, ou naoh, para que o espetaculo seja liberado. Os atores veteranos, que jah fizeram aqueles papeis varias vezes – o texto eh de Jean Anouilh -, comecam a interagir entre si e com a tela, recitando o texto classico. Resnais fala de cinema e teatro, de arte e vida (e morte). O proprio `morto`… Deixa pra lah. Esperem pelo filme. Falei ontem do encanto de rever Emmanuelle Riva na coletiva de Amour. A voz de Riva, dizendo aquele texto de Marguerite Duras, em Hiroshima, Meu Amor, faz parte das minhas experiencias inesqueciveis no cinema. A musicalidade das vozes dos atores de Resnais. Apesar de todo o brilho – eclatant – de seus filmes, eh um autor que me convida a fechar os olhos, para ouvir as vozes em seu cinema. Resnais, um dos maiores autores do cinema – o mais jovem autor do cinema frances, segundo Daniele Heymann, que fazia a mediacaoh na coletiva – naoh assina `um filme de…` nem `mise-en-scene de…` Com ele eh soh realization de Alain Resnais. Toda essa conversa de autoria… Autor eh Resnais, o `realizador`.