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E o turbilhão da vida levou Jeanne Moreau, aos 89 anos

Luiz Carlos Merten

31 Julho 2017 | 15h12

Em janeiro, morreu Emmanuelle Riva, aos 89 anos. Nesta segunda, em Paris, foi a vez de Jeanne Moreau, também aos 89. Jeanne Moreau! Tive o privilégio, graças a minhas amigas do Festival do Rio, de entrevistá-la, quando aqui veio. A entrevista foi na casa do cônsul da França, ou embaixador. Uma vista espetacular do Aterro. Jeanne fumava compulsivamente. Acendia um cigarro no outro. Sempre digo que Annie Girardot, como Nadia, em Rocco e Seus Irmãos, a obra-prima de Luchino Visconti, entregou a maior interpretação da história do cinema. A crítica norte-americana Pauline Kael dizia que era Vivien Leigh, como Blanche, em Uma Rua Chamada Pecado, a adaptação de Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams, por Elia Kazan. Pontualmente, são interpretações extraordinárias, antológicas. Annie, Emmanuelle – em Hiroshima, meu Amor, de Alain Resnais. Essas francesas não eram moles, não. Mas Jeanne…! Foram mais de 100 filmes, com alguns dos maiores diretores do mundo. Orson Welles, Joseph Losey, Michelangelo Antonioni, Luis Buñuel, Louis Malle, François Truffaut, Jacques Demy, Theo Angelopoulos, Rainer Werner Fassbinder, Cacá Diegues… Filmes como A História Imortal e Campanas a Medianoche, Eva e M. Klein, A Noite, O Diário de Uma Camareira, Ascensor para o Cadafalso e Os Amantes, Jules e Jim e A Noiva Estava de Preto, A Baía dos Anjos, O Passo Suspenso da Cegonha, Querelle, Joanna Francesa. As imagens se sucedem no meu imaginário. A deambulação de Jeanne no Champs Elysées, ao som daquele solo lancinante de Miles Davis. Jeanne cantando Tourbillon (e depois fazendo dueto com Vanessa Paradis numa abertura de Cannes), Jeanne cantando Chico (‘Quem me despertou/Mar, maré, batô…’). Jeanne me contando as histórias de sua vida. Em 1958, Malle era o amor de sua vida, mas ela estava no set com Jean-Marc Bory. A cena polêmica de Les Amants. Ele faz sexo oral na mulher e a câmera de Malle fecha-se no rosto em êxtase de Jeanne. Sua certeza – ‘Se eu fizer bem a cena, nossa relação vai acabar.” Seu conhecimento dos homens, seu amor pela interpretação. Ela fez a cena genialmente. A ligação acabou, mas não a amizade. Tenho tido na minha vida esses momentos que considero privilegiados. Minha hora com Jeanne foi inesquecível. Ela morreu na madrugada desta segunda, 31. Será eterna no meu imaginário e no de uma legião de cinéfilos em todo o mundo.