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Cultura » E o terceiro Godard?

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Luiz Carlos Merten

09 Junho 2008 | 12h32

Só agora, lendo o comentário de Mário Kawai, dei-me conta de que eram três os filmes de Godard no sábado e eu só vi dois. Além de “O Pequeno Soldado’ e ‘One Plus One’, havia também ‘A Chinesa’, que passa por ser a antecipação de Maio de 68. Aqueles garotos discutem a revolução – e Mao – dentro de um apartamento. O filme é de 1967 e no ano seguinte a revolução iria para as ruas de Paris e, dali, para os campi universitários de todo o mundo. Dei uma paradinha na redação do post e fui conferir o ano de ‘A Chinesa’, se estava certo. Caí duro porque Godard, em 1967, fez os seguintes filmes – ‘Made in USA’, ‘Duas ou Três Coisas Que Eu Sei Dela’, ‘A Chinesa’, ‘Week-End à Francesa’ e os episódios de ‘O Amor Através dos Séculos’ e ‘Loin du Vietnam’. Quatro longas e dois curtas! Como o cara tinha tempo para tantas idéias e tantos filmes diferentes? É por isso que ele era, aliás, é God-art e virou mito. Não me lembro agora exatamente as próximas atrações, mas a Sessão Cinéfila do Espaço Unibanco apresenta mais dois filmes de Godard no sábado, meio-dia. Um deles é ‘Alphaville’, tenho certeza. O outro ‘acho’ que é ‘Week-End’. Ainda sobre ele, e sobre ‘Duas ou Três’, que fez com Marina Vlady. Sempre achei genial aquele plano da taça de café, em que os personagens falam – nem me lembro mais sobre o quê – e as bolinhas vão se formando e dissolvendo à medida que o líquido é sacudido pela colher. Tenho para mim que Manoel de Oliveira, o mais jovem diretor do mundo, viu esta cena – e também o episódio ‘A Preguiça’, de ‘Os Sete Pecados Capitais’ – antes de criar aquele momento magnífico do Michel Piccoli em ‘Quero Voltar para Casa’, quando o foco da imagem fica no sapato que ele comprou. Sobre ‘Week-End’, quero dizer que é um dos meus Godard favoritos. A derrocada do sistema num grande congestionamento de trânsito, com direito a antropafagia e tudo. Contemporâneo daquele filme é ‘Mecânica Nacional’, o ‘Week-End’ mexicano, de Luis Alcoriza, em que o mundo é visto da perspectiva de uma oficina mecânica. Adorava o filme do Alcoriza e, na minha cabeça, ele é indesligável do de Godard.