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E o Schumacher, hein?

Luiz Carlos Merten

15 Novembro 2011 | 18h59

Joel Schumacher não é exatamente um bom diretor, mas tem a seu crédito grandes sucessos de público – as duas aventuras de Batman, que ele retirou do registro gótico de Tim Burton e, como ex-fotógrafo e figurinista, colorizou além da conta – e uma boa adaptação, a melhor?, de John Grisham,  ‘Tempo de Matar’ . Devo estar muito tolerante, mas fui ver ontem o novo Schumacher, e achei ‘Reféns’ bem interessante. Para início de conversa, há tempos que não via dois vencedores do Oscar, Nicolas Cage e Nicole Kidman, tão convincentes. Cage está acabado, ou assim parece. Passada sua fase de herói de ação, não emplaca nenhum filme sequer razoável. O caso de Nicole é pior ainda. Ela não era nada na sua fase Tom Cruise, teve um momento de brilho e ganhou o Oscar, além de ligar seu nome ao de autores de prestígio, como Lars Von Trier, Gus Van Sant, Baz Luhrmann e Alejandro Amenábar, mas há tempos que virou sinônimo de veneno de bilheteria, com escolhas equivocadas de papeis. Para completar, arruinou a própria cara com botox e, mesmo recuando, os lábios e ao redor dos olhos continuam esquisitos, o que a impede de voltar a ser sexy como a mulher negligenciada de Cage no filme de Schumacher. O casal tem uma filha, a garota foge de casa para cair na night na cena inicial, mas é, no fundo, uma boa moça e volta para o que se revela um pesadelo. Uma equipe de falsos policiais ocupou a casa, fez papai e mamãe reféns e agora ameaça matar todo mundo, se Cage não abrir o confre onde, presumivelmente, há uma fortuna em diamantes e outra em dinheiro vivo. Numa típica fantasia de Hollywood, Cage assumiria o controle da situação, botaria os bandidos para correr e até os mataria etc. Como em ‘Tempo de Matar’, Schumacher segue o caminho mais árduo (ou subversivo). Cage recusa-se abrir o cofre e depois vai desfiando o rosário. Está falido, até o colar de diamantes da mulher não vale nada, substituído por pedras falsas para ele poder pagar as dívidas. A própria Nicole desconfia de que um dos invasores é o homem com quem teve um envolvimento, ou assim parece, porque, em vários momentos, as coisas e as pessoas não correspondem à imagem que fazemos delas. Uma crítica à sociedade da imagem? Pode ser. Nicole e o ‘amante’ não têm vínculo algum, conforme sabemos pelo flash-back, embora as fotos das câmeras de segurança possam induzir a gente a pensar o contrário. Nisso tudo, vai crescendo o tema da morte, que tanto atrai o diretor e, quando ele veio ao Brasil e o entrevistei, Schumacher contou que foi muito marcado pela morte do pai, quando era criança, e aquilo havia virado sua obsessão mais íntima. A casa é destruída desde o interior, o trio, pai, mãe e filha, sobrevive mas todo detonado (e sem dinheiro), o sonho americano vira pesadelo e ainda há o patético personagem do ex-funcionário apaixonado por Nicole e com quem ela, na verdade, faz um jogo ambíguo de sedução para tentar salvar a filha e o marido. ‘Reféns’ me lembrou aqueles noir dos anos 1940, de Anatole Litvak, filmes como ‘Uma Vida por Um Fio’, Sorry Wrong Number, e ‘Na Cova das Serpentes’, que ostentam a reputação de clássicos, mas tenho minhas dúvidas se são tão bons coimo a fama que a crítica lhes atribui. Inversamente, ‘Reféns’ não me pareceu ruim e eu comecei a me envolver com aquela gente, mais até com dois dos ‘criminosos’, os irmãos, cuja relação de amor e ódio me pareceu bem desenvolvida (e estruturada). Para minha surpresa, tenho de admitir que gostei de ‘Reféns’.