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E o Príncipe Caspian, hein?

Luiz Carlos Merten

01 Junho 2008 | 13h51

Jorge salvou meu dia. Depois do meu post sobre a Cleópatra Negrini achei que tinha sido passional demais, chamando de delinqüentes os jurados que fizeram aquelas escolhas no Festival de Brasília do ano passado. Não sei nem quem eles eram, mas ainda bem que condicionei – seriam delinqüentes se não tivessem dado o Candango de direção de arte para o filme do Bressane… Deram. Vou dispensar o camburão e creditar o equívoco do prêmio de melhor atriz à soberania do júri, que é sempre heterogêneo, muitas cabeças pensantes etc e tal. Não entendi o ponto do HIM no comentário dele. Que história é essa de experiência solitária? E eu conto demais minha vida, é isso? Sorry, mas o blog tem este lado de diário. E eu procuro não contar as coisas gratuitamente, mas para contextualizar certas escolhas. Como esta que vou fazer (ou falar…) agora. Lamento não ter lido com maior atenção o livro que narra a relação de JRR Tolkien e C.S. Lewis. Ambos eruditos (e amigos), influenciaram-se mutuamente ao criar duas sagas que exploram o universo mítico – ‘O Senhor dos Anéis’ e ‘As Crônicas de Nárnia’. Nunca li o Lewis e, por isso, tenho dificuldade para falar dos livros dele, muito amados nos EUA, mas quase sempre considerados ‘literatura infanto-juvenil’, enquanto o Tolkien extrapola esse território. De Lewis, só posso falar pelo que vejo no cinema e o livro teria me fornecido uma ferramenta interessante, porque há um capítulo inteiro – que ‘olhei’, não posso nem dizer que li, na vertical – sobre sua religiosidade e até carolice, da qual o filme, ou os filmes terminam dando conta. Isso posto, quero dizer que lamento muito quando vejo um tipo de reducionismo crítico que busca a interpretação do mito nos chamados filmes ‘adultos’ e nem se preocupa em tentar decodificar os signos dos filmes-pipoca. Há 50 anos, ‘Cahiers du Cinéma’ fez uma revolução e instituiu o cinema de autor justamente para sustentar, entre outras coisas, a tese de que Fred Zinnemann podia ser ambicioso e sério, mas sua mise-en-scène acadêmica não dava nem para a saída perto do glorioso Don Weis de ‘As Aventuras de Haji-Baba’, que era mais autor do que ele. À seriedade do tema, propriamente dito, ‘Cahiers’ preferia a inventividade da mise-en-scène. Não sou lá muito fã da revista, embora colecione ‘Cahiers’, e adorei ler a (auto)crítica de Claude Chabrol e Pascal Bonitzer no livro ‘Que Reste-t-Il de la Nouvelle Vague?”, de Aldo Tassone. Chabrol ironiza que os franceses são monoteístas e, para colocar Jean Renoir no Olimpo, a geração nouvelle-vague teve de destruir todo o restante do chamado – pejorativamente, por Truffaut – cinéma de qualité. Chabrol diz que se pode preferir Renoir, mas diz que nenhuma análise sobre a história do cinema francês dará conta de sua grandeza e de seus problemas se não considerar que havia uma vertente Renoir e outra Duvivier, o que Truffaut, por exemplo, preferiria morrer a admitir, ainda mais se tivesse de considerar, como Claude, que o velho Julien fez coisas admiráveis. Orson Welles também pensava assim, mas esta é outra história. No mesmo livro, Pascal Bonitzer, até hoje (como cineasta) queridinho da revista, lembra que, quando crítico na casa, comprou brigas homéricas porque o pensamento xiita tinha de ser homogêneo. Ele gostava de Fellini. Não podia. Em ‘Cahiers’, ou se gostava de Rossellini – o eleito – ou ficava fora do ‘grupo’. Eu, hein? Detesto esse tipo de ditadura do pensamento, coisa mais stalinista, e quero mais é analisar o mito em ‘Cleópatra’ como em ‘Príncipe Caspian’. Tudo isso para dizer que achei o segundo filme da série adaptada de Lewis bem melhor, e até mais complexo, com a introdução do tema da traição de ambos os lados do que deixa de ser maniqueísmo, a simples oposição entre o bem e o mal. A propósito – estava um dia na Fnac em Paris, havia um telão de alta definição que mostrava o primeiro ‘Nárnia’ e eu fiquei olhando, sem som, a batalha final, que me impressionou bem mais do que quando a vi no cinema, com toda aquela barulheira. (Tive uma experiência semelhante na Fnac da Paulista, naquela noite do debate sobre os 80 anos da United Artists. No telão, passava o primeiro ‘Missão Impossível’, de Brian De Palma, que eu adoro – não consigo escolher entre este filme e ‘Scarface’, na obra do diretor. Fiquei chapado. Queria ficar olhando, mesmo sem som. Quase perdi o horário do encontro.) Acho que alguma coisa ocorre em ‘Príncipe Caspian’. O diretor Andrew Adamson, livre da obrigação de ser ‘explicativo’ – já introduziu os personagens e o conceito geral no filme anterior -, pode ir além, e vai. Com os limites que possa ter, e tem, seu filme possui uma magia que me encantou. Tenho de admitir, meu querido blog, que gostei mais do que do novo Indiana Jones.

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