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Cultura » E o Panahi, hein?

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Luiz Carlos Merten

22 Dezembro 2010 | 16h40

Dilma Roussef ainda não assumiu a presidência, mas já sinaliza para atitudes independentes de seu mentor, o presidente Lula. Uma delas me interessa bastante – Dilma fez críticas ao governo do Irã e anunciou maior firmeza nas cobranças por parte do Brasil, em entrevista à imprensa dos EUA. Justamente ontem, Jafar Panahi foi condenado a seis anos de prisão e privado por 20 anos (20!) do exercício de sua profissão pelo crime de propaganda contra o governo de Mahmoud Ahmadinejad. A alegada propaganda foi seu apoio ao opositor de Ahmadinejad no controvertido processo da eleição presidencial, que observadores independentes afirmam ter sido fraudada. Panahi ainda é jovem, em termos – nasceu em 1960 -, mas 20 anos é tempo demais e só aos 70 ele poderá pegar numa câmera de novo. O caso lembra macarthismo, stalinismo e outros ‘ismos’, sendo que o fascismo, de esquerda, direita ou religioso, é sempre um ato de barbárie. Panahi havia sido convidado para integrar o júri do Festival de Berlim de 2011, que será presidido pela atriz Isabella Rossellini. Ontem, recebi e-mail da assessoria da Berlinale, com o veemente protesto de Dieter Kosslick. O diretor do Festival de Berlim considera chocante que um diretor com o prestígio de Panahi seja alvo de perseguição por seu trabalho artístico. É o fim, mesmo. Coincidentemente, sexta-feira, no horário da Mostra na TV (na Cultura), vai passar ‘Fora do Jogo’ (Offside), que o diretor fez em 2006 (e foi premiado em Berlim). O filme é sobre garota que se disfarça como homem para tentar driblar a lei da República Islâmica que veta a presença de mulheres em campos de futebol. É o tipo de ‘propaganda’ que Panahi faz, embora o nome não seja exatamente esse. A República Islâmica simplesmente não aceita críticas, e isso já vem de longe na obra de Panahi. Se em ‘O Balão Branco’, a realidade, filtrada pelo olhar das crianças, podia ser palatável, a visão da mulher na sociedade iraniana, formulada em ‘O Círculo’, já havia causado não poucos problemas ao cineasta. Se lhe interessa saber, Leon Cakoff, o sr. Mostra – o evento revelou o cinema iraniano e diretores como Kiarostami, Makhmalbaf e Panahi no Brasil -, costuma levar convidados para discutir com eles os filmes que apresenta no horário da Mostra. No caso de ‘Fora de Jogo’, será William, ex-Coríntians. Espero que também eles protestem contra o que há de totalitário nessa decisão do Irã. Nessas, no plural – não só o veto às mulheres em estádios, mas também a prisão de Panahi.