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Luiz Carlos Merten

07 Junho 2010 | 12h07

Lembro-me que quando ‘Moulin Rouge’ estreou, fiz sei lá que associação entre o musical de Baz Luhrmann e a ‘Lola Montès’ de Max Ophuls, algo a ver com o artifício, com certeza. Na época, a título de provocação, Luiz Zanin Oricchio retrucou que cada um tem a ‘Lola Montès’ que merece. A minha é Satine, não tenha dúvida e, para dizer a verdade, nunca vi ninguém que, defendendo ‘Lola Montès’, gostasse de verdade da alegada obra-prima de Ophuls. Revi o filme no cinema, na versão restaurada. Em Cannes Classics, na tela da sala do 60.ème, e nem ali fiquei embevecido como gostaria. Há algo que me trava no filme. ‘Lola Montès’ integra a caixa que a Versátil dedica ao diretor. São quatro filmes – além de ‘Lola Montès’ e ‘A Carta de Uma Desconhecida’, que já havia lançado antes, a Versátil resgata ‘Coração Prisioneiro’ e ‘Na Teia do Destino’. Três Ophuls made in USA, onde o judeu errante da sétima arte, o mais cosmopolita dos diretores – você pensava que era Roman Polanski? – produziu alguns de seus melhores trabalhos. Nunca vi ‘O Exilado’, é uma falha minha, mas acho que a passagem de Ophuls por Hollywood e pelo cinema de gêneros lhe foi benéfica. ‘Coração’ e ‘Teia’ filiam-se ao noir, mas o recorte do primeiro é feminino, senão feminista. Ophuls, como Joseph L. Mankiewicz e Kenji Mizoguchi, é um autor das mulheres. A garota de ‘Coração’ casa-se com um milionário, ao que se diz inspirado em Howard Hughes, e tenta escapar à sua dominação, mas o paradoxo é que o coração prisioneiro talvez não seja o dela, mas o dele. Em ‘Teia’, James Mason, que já está em ‘Coração’, vira o chantagista que pressiona Joan Bennett, cuja filha pode estar – ou está – envolvida num assassinato. A mulher é sempre vítima no cinema de Ophuls, mas mais do que dos homens e da ordem social, ela talvez seja vítima de si mesma. Joan Fontaine é a heroína ophulsiana por excelência. É sublime em ‘Carta’. Sorry, mas é o ‘meu’ Ophuls. Joan ama em segredo Louis Jordan. Ela teve um fugaz momento com ele, quando era um jovem e promissor pianista. O personagem não cumpre sua promessa inicial, passa pela vida à deriva, envolvendo-se com mulheres que não lhe falam ao coração. Na abertura do filme, ele está fugindo a um duelo de honra, exigido por um desses maridos ultrajados por um adultério que não lhe significa nada, quando recebe a carta de Joan. Ela conta como o seguiu, a vida toda, como o adorou, como o filho de ambos – cuja existência ele desconhecia – morreu. O filme é sobre o que para Joan é o acaso, na relação dela com Jourdan, mas para o diretor é o destino. Ophuls era um gênio. O filme parece um rendilhado, por seu visual, mas a ideia forte é o trem. Há sempre um trem partindo – leva Jourdan, o filho que vai morrer na guerra. O trem é ‘viril’ – Hitchcock não fez dele o simulacro do pênis, na cena de sexo sugerida no desfecho de ‘Intriga Internacional’, quando o trem penetra no túnel? E a mulher? Joan é como Penélope, à espera de um Ulisses que não tem a grandeza do herói homérico. Stanley Kubrick amava Ophuls e o homenageou – em ‘Glória Feita de Sangue’ e ‘2001, Uma Odisseia no Espaço’. Ophuls ostenta a fama de cineasta da valsa, pela movimentação de sua câmera. Vários de seus filmes passam-se em Viena, uma cidade que ele foi estilizando (inclusive em ‘Carta’, todo feito em estúdio). Kubrick venerava Ophuls porque, segundo ele, foi o diretor que, de dentro da ambiência do romantismo aristocrático e burguês, operava a destruição do segundo. É curioso, mas eu sinto mais isso em ‘Carta’, adaptado de Stefan Zweig, do que em ‘Lola Montès’. Quanto a ‘Teia’, não contem para ninguém, mas é um dos filmes mais subversivos – sobre a família norte-americana – produzidos por Hollywood. E tudo de ‘dentro’, sutil. Maravilhoso.