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E o Kikito… (2)

Luiz Carlos Merten

07 Agosto 2015 | 18h23

GRAMADO – Mantenho o título, mas se der esse e mais uns dois posts que pretendo fazer não serão sobre o Festival de Gramado, mas sobre outros assuntos ligados às estreias da semana – de ontem. Na saída de Porto Alegre, Maria do Rosário Caetano perguntou-me se vi o pau que Suzana Schild deu no novo Jorge Furtado, Real Beleza. Não vi e não quero saber. Ao contrário de Suzana, gostei, e muito. Cheguei a brincar com Jorge e sua mulher e produtora, Nora Goulart. Em geral, começo não gostando dos filmes dele (porque tenho uma expectativa elevada) e tenho de ver quatro ou cinco vezes até ser seduzido. Foi assim com Saneamento Básico, que hoje não me canso de rever. Adoro. Com Real Beleza, ocorreu o contrário. Gostei de cara, e aí o risco é inverso. Pode ser que revendo o filme, três, quatro, cinco vezes, eu seja cooptado pelas vozes discordantes, mas duvido. A principal crítica que ouço sobre Real Beleza é que o filme é superficial. Creio que a superficialidade está no olhar de quem vê. O ‘meu’ Real Beleza é bem denso e as referências de que Jorge se vale – Shakespeare, Guimarães Rosa, Jorge Luís Borges etc – alimentaram meu imaginário e enriqueceram os personagens. Mais que como discussão sobre a beleza, o filme me apanhou como reflexão sobre o tempo. O próprio Jorge disse-me uma coisa interessante. Real Beleza foi o filme em que ele precisou se reinventar. Reaprender. Nos anteriores, ele perfeccionou o timing da comédia. Guimarães Rosa dizia que a piada é como o fósforo. Deflagrada, perde o uso. Com seus atores, Jorge aprendeu a dominar o tempo do humor. Mas, e o drama? A cena da refeição é exemplar. As pessoas não falam ao redor da mesa. Secretam o que não conseguem verbalizar. Durante quanto tempo se filma o silêncio? Adriana Esteves tem feito tantas vilãs (Avenida Brasil, Babilônia, Minions) que é bom, para variar, vê-la fazer Meryl Streep. A referência óbvia em Real Beleza é As Pontes de Madison. O fotógrafo, a mulher insatisfeita. Mas Jorge jura, e eu acredito, que não viu o filme do xerife Clint Eastwood – e que, a propósito, não é um dos meus favoritos dele, pelo menos não como American Sniper. Vão ver Real Beleza. É muito bom, mas isso, pelo visto, só Rodrigo Fonseca e eu sacamos.