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E o horror não termina nunca

Luiz Carlos Merten

15 Março 2018 | 20h34

Confesso que fiquei muito impressionado com a beleza viril de Marc Porel, que faz o escritor Filippo d’Arborio em O Inocente. Porel já tivera um papel em Ludwig, como o valet do rei, e na versão estendida do filme tinha, até onde me lembro, uma ousada cena de sexo com Helmut Berger. Marc Porel foi ator de Costa-Gavras, de Lucio Fulci, o mestre italiano do giallo. Sumiu de repente, ou assim me pareceu. Resolvi pesquisar. Tomei um choque. Como seu personagem em O Inocente, Porel morreu, no começo dos anos 1980, de uma doença que contraiu na África – meningite. Li que era muito ligado ao irmão e a morte prematura de Jean-Pierre o desestabilizou, a ponto de haver viajado nas drogas, tornando-se dependente da heroína. Para complicar, sua filha Bérangère morreu com apenas 23 anos. Imagino que se tenha deixado abater. Pode parecer exagero de minha parte, e talvez seja, mas essa história me abalou e entristeceu. Agora somem o brutal assassinato da vereadora Marielle Franco, no Rio. Leio que um dia antes de ser atingida pelos disparos, ela havia postado – ‘Mais um homicídio de um jovem que pode estar entrando para a conta da PM.’ E ainda tem gente duvidando que foi execução sumária… Estou em casa vendo as imagens do protesto na Paulista. Em BH, uma multidão também está protestando. Já não era sem tempo. Romper a passividade diante do horror sem fim que está virando esse País. Fui ver hoje pela manhã o Ex-Pagé de Luiz Bolognesi. Amigos que haviam visto o filme em Berlim me disseram que sua força vinha do personagem. Ouvi até que era ‘quadrado’. Não foi o que achei. Documentário? Só se for nas bordas. Ex-Pagé é (re)encenado como uma ficção. Um pagé, por tradição, é depositário de uma vivência de 4 mil anos que faz dele o senhor dos segredos da floresta. No filme, esse conhecimento é desautorizado como coisa do Diabo pela Igreja evangélica, uma forma de etnocídio, na medida em que não reconhece o outro nem sua cultura, exatamente o que o ‘Ocidente’ reprova no Islã. No filme, uma índia é mordida por uma cobra e fica entre a vida e a morte no hospital. Ela só se recupera quando o ex-pagé reassume toda uma tradição de invocar os espíritos da floresta. Ao apresentar seu filme para a plateia de convidados – não creio que tenha sido cabine de imprensa -, Bolognesi explicou a opção pela tela cheia e a captação das imagens pela mesma câmera de Star Wars. Como pode ser quadrado um filme com a riqueza e complexidade daquele quadro? Cheguei a pensar em Laranja Mecânica, em Alex, quando se recupera do efeito do tratamento Ludovico, que não é outra coisa senão uma lavagem cerebral. Coisas muito interessantes estão se passando nas telas, e nas ruas. Essa reação indignada das pessoas de bem me alimenta a esperança. Desperta, Brasil.