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Cultura » E o feitiço de Áquila?

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Luiz Carlos Merten

07 Abril 2009 | 12h17

Estava saindo ontem do jornal quando vi a capa do suplemento de Turismo, que circula hoje, encartado no ‘Estado’. Toscana – Sabores e Histórias. Pensei comigo que dava post e prometi a mim mesmo que o escreveria hoje. A Toscana, de Florença e Siena, é um dos lugares mais belos do mundo, cenário de grandes filmes de Bernardo Bertolucci e Paolo e Vittorio Taviani. O recente 007 também tinha uma cena ótima em Siena, James Ivory celebrou Florença em ‘Uma Janela para o Amor’, mas a Toscana, no meu imaginário cinematográfico, é aquele lugar mágico em que Lucy (Liv Tyler) faz seu rito de passagem em ‘Beleza Roubada’, não o melhor Bertolucci, mas meu favorito (até pelas semelhanças entre Liv e minha filha Lúcia). Saí do jornal, fui ver ‘Fiel’, o documentário de Andréia Pasquini sobre a torcida do Corinthians, na pré-estréia do Arteplex, e hoje fui atropelado pelo horror estampado na capa do ‘Estado’ e do ‘JT’, imagino que em toda a imprensa, em todo o mundo – o terremoto que matou 150 na Itália, desabrigou 70 mil pessoas e destruiu o patrimônio da humanidade concentrado na cidade de Áquila, que foi seu epicentro. Há dias, desde sexta-feira, estava para acrescentar um post sobre ‘O Feitiço de Áquila’. Na sexta, quando passei pelo CineSesc, antes da exibição de ‘Garapa’ no É Tudo Verdade, encontrei um velho amigo de Porto. Conversamos e, na verdade, foi ele quem citou o filme de Richard Donner com Rutger Hauer e Michelle Pfeiffer, dizendo que se lembrara muito daquela fantasia medieval ao assistir a ‘O Estranho Caso de Benjamim Button’, de David Fincher. Como Hauer e Michelle, que só se viam na forma humana por breves momentos, quando a noite e o dia passavam no fio da navalha, Brad Pitt e Cate Blanchett vivem vidas inversas até o breve, fugaz momento em que se contemplam naquele espelho, quando suas idades também se tocam, ela a meio caminho do envelhecimento, ele a meio caminho do renascimento, que, neste caso, significa a morte. Achei engenhosa a relação, e confesso que não havia feito a ponte, por mais que goste de ‘O Feitiço de Áquila’. O filme de 1985 tem aquela trilha techno que é um tanto over, mas acho linda a história e me encantam a delicadeza de Michelle e a virilidade de Hauer, cujo olhar passa um sentimento de dor – e perda – quando consegue ver, numa fração de segundos, a mulher amada que logo em em seguida vai virar pássaro. Mas o detalhe é a locação, Áquila. Lembro-me que, na época, há 24 anos, li em algum lugar que um daqueles castelos que abrigaram a produção pertencia à família de Luchino Visconti. Leio na capa do ‘Estado’ que o centro histórico da cidade medieval foi devastado e o próprio governo admite que os danos são mais graves do que se poderia imaginar. Pensei comigo que o homem devasta a Terra, mas o planeta se vinga e destrói, em segundos, o patrimônio que o homem demora… Quanto?… para construir. Só para fechar. Donner, ex-ator, parecia um diretor interessante quando fez ‘A Profecia’ (o primeiro) e ‘Superman’ (também o primeiro, de 1978, com Christopher Reeve). Ao contrário de Jean Tulard, que cai matando em ‘Os Goonies’ no Dicionário de Cinema, gostei do filme, na época –meu lado infantil –, e achei engenhoso o roteiro de Chris Columbus. Donner ganhou rios de dinheiro com a série ‘Máquina Mortífera’, mas bom, bom mesmo, só ‘Ladyhawke – O Feitiço de Áquila’.