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Cultura » E o Egoyan, hein?

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Luiz Carlos Merten

22 Julho 2010 | 13h43

Gosto bastante do diretor canadense Atom Egoyan, mesmo que eventualmente alguns de seus filmes me decepcionem. Os melhores, de qualquer maneira, são excepcionais, como ‘O Doce Amanhã’, que ele adaptou do livro de Russell Banks. Neste anos todos, já o entrevistei muitas vezes, ao vivo – em festivais e aqui mesmo em São Paulo – ou por telefone. Não sei exatamente quando estreou o ‘Chloe’ de Egoyan, rebatizado como ‘O Preço da Traição’, mas com certeza não devia estar no País, porque, em caso contrário, teria feito a crítica e até tentado falar com ele. Fui procurar não sei o quê no Guia do ‘Estado’ – Jotabê Medeiros me falou maravilhas de ‘Max e Mary’, que também não vi, foi isso – e encontrei o ‘Chloe’. Como já está em horários bem alternativos, 16 horas no Gemini, fui ver ontem, com medo de que saísse de cartaz (vai continuar). Gostei bastante e o filme até me perturbou, Saí do cinema meio zonzo e fui projetado naquela Paulista super-movimentada de fim de tarde. Parei no balcão de um café e, ao mesmo tempo em que pensava no filme, olhava para aquele gente – e carros –, todo mundo correndo para lá e para cá. Para quê, fiquei me perguntando. Deixa para lá, Michelangelo Merten, dando uma de Antonioni, querendo refletir sobre alienação, incomunicabilidade e solidão. Em primeiro lugar, o título brasileiro. Os distribuidores andam cada vez mais preguiçosos. ‘Chloe’ não devia dizer nada para eles, mas copiar, na cara dura, o ‘Mullolhand Falls’ de Lee Tamahori, com Nick Nolte e Melanie Griffith, que assim se chamou – em 1996, ou 7 – me parece um pouco demais. Desde ‘Exótica’, o primeiro de seus filmes a que assisti, em 1994, Egoyan tem falado sobre perversão e o que é perversão, o que na maioria das vezes leva a outra discussão, sobre quanto é relativo o conceito de ‘verdade’. Como a perversão, ela pode variar de pessoa para pessoa, embora a cultura – repressora – tente nos fazer crer em valores (verdades?) universais. ‘O Preço da Traição’ parece uma mistura de ‘Teorema’, de Pasolini, com ‘Atração Fatal’, de Adrian Lyne (xô!), embora o crédito final informe que é baseado no filme francês ‘Nathalie’, de Anne Fontaine, com duas gostosas, Fanny Ardant e Emmanuelle Béart. Confesso que não havia feito a associação. Julianne Moore faz ginecologista casada com Liam Neeson, um charmoso professor de música, especializado em óperas. Ela prepara uma festa surpresa para o marido, que está em outra cidade, mas ele perde o avião. Julianne vasculha seu celular e descobre uma mensagem que a induz a achar que ele estava festejando com outra. Em crise – de meia idade, de afeto –, ela recorre a uma prostituta jovem (Amanda Seyfried), a quem paga para descobrir os podres do marido. A garota invade a intimidade do casal e começa a excitar Julianne com suas histórias. Lá pelas tantas, como uma versão feminina de Terence Stamp em ‘Teorema’, a garota está papando a família inteira (Julianne, o filho etc). Com medo de perder o controle da situação, Julianne tenta bani-la de sua vida, mas a esta altura Amanda já virou Glenn Close (em ‘Atração Fatal’) e a narrativa corre feito trem desgovernado para o desfecho sombrio. Há uma reviravolta interessante (a relação de Amanda com Neeson) e um detalhe final que introduz uma nota dissonante no que parece o desfecho satisfatório (do ponto de vista da ‘família’).  Gostei de ‘O Preço da Traição’. Me pareceu o melhor Atom Egoyan desde ‘O Fio da Inocência’, Felicia’s Journey, embora suas afinidades maiores sejam com ‘Ararat’ e ‘Where the Truth Lies’, dos quais justamente não gostei tanto. Julianne Morre é ótima, como sempre, e aqui, pela própria natureza do tema, tem cenas ousadas de sexo, embora nada tão forte como aquela em que masturba o filho em ‘Pecados Inocentes’, Savage Grace, de Tom Kalin. Como o filme segue por mais uma semana, sugiro que o vejam. Vou tentar cavar um espaço para escrever no ‘Caderno 2’. E vocês, por que não me falaram de ‘O Preço da Traição’?