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Luiz Carlos Merten

28 Fevereiro 2010 | 10h37

Enfim, em casa! Acabo de chegar. Embora não seja o cara mais caseiro do mundo, confesso que dois meses de estrada já estavam me cansando. Desde o começo de janeiro, entre os EUA, Minas, Alemanha e França, fiquei somente um dia ou dois, às vezes somente algumas horas, em São Paulo, antes de partir para a próxima etapa. Cheguei a considerar a hipótese de prolongar a estada em Paris para tentar assistir, ontem à noite, à entrega do César de 2010, mas depois desisti, menos pelo risco de não conseguir credenciamento e mais por medo do caos nos aeroportos, por conta de uma greve de controladores aéreos que levou ao cancelamento de vários vôos e ao overbooking de outros. O César é o Oscar do cinema francês. Havia grande expectativa para saber quem seriam os vencedores desta edição. ‘Le Figaro’ fez uma pesquisa com seus leitores na internet e os escolhidos foram ‘Le Concert’, de Radu Mihaileanou, melhor filme, Kristin Scott Thomas, melhor atriz (por ‘Partir’) e Vincent Lindon, melhor ator (por ‘Welcome’). Mal cheguei e já entrei correndo na internet para conferir o resultado. Os votantes da Academia Francesa fizeram outras escolhas: ‘Un Prophète’ foi o melhor filme – e Jacques Audiard, o melhor diretor -; Tahar Rahim, a excepcional revelação de ‘Um Profeta’, foi o melhor ator (e ele ganhou um segundo prêmio como ‘melhor esperança masculina’); Isabelle Adjani foi a melhor atriz, por ‘Le Jour de la Jupe’. Foi o quinto César da carreira dela, que deu recentente uma entrevista polêmica na França, dizendo, lá pelas tantas, que a época mais difícil de sua carreira, e não apenas da dela, foi quando o falecido Daniel Toscan Du Plantier, todo poderoso na Gaumont, resolveu que ia fazer de sua amante a grande estrela francesa. A amante em questão era outra Isabelle, a Huppert, com quem Adjani mantém uma rixa antiga. Adjani ganhou ontem seu quinto César, um recorde – o anterior havia sido por ‘A Rainha Margot’, em 1993 (ou 94). Ela faz uma professora que enfrenta os alunos desordeiros na porrada, de arma na mão. Num certo sentido, o filme é o anti-‘Entre os Muros da Escola’, de Laurent Cantet, e Adjani pode ter levado o troféu pelo choque que sua presença provoca na tela. Como Gerard Depardieu, ela perdeu a forma. Engordou, está ‘largada’, um pouco como Elizabeth Taylor em ‘Quem Tem Medo de Virginia Woolf?’, mas a força da interpretação é grande, mesmo para quem, como eu, não tenha gostado do filme (vi ‘Le Jour de la Jupe’ no ano passado, em Berlim). Clint Eastwood levou o César de melhor filme estrangeiro, por ‘Gran Torino’, derrotando ‘Avatar’, de James Cameron, e ‘A Fita Branca’, de Michael Haneke. A sensação da noite foi a entrega de um César especial, de carreira, a… Harrison Ford. A mídia francesa deu o maior destaque para o fato de que Indiana Jones chegou a Paris pilotando seu jato particular e também que outra estrela de Hollywood, Sigourney Weaver, atravessou o Atlântico especialmente para entregar o troféu ao colega americano. Mas a noite foi do ‘Profeta’, que ganhou vários prêmios, incluindo roteiro, co-escrito pelo diretor Jacques, filho do prestigiado roteirista Michel Audiard, e melhor coadjuvante, para Nils Arestrup, como o chefão de quem Tahar Rahim vai se aproximar na cadeia, para usurpar seu lugar. Gosto demais do filme de Jacques Audiard e, até onde sei, a distribuição no Brasil será da Sony. Preciso ligar para a Lia Vissotto para saber quando entra.