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Cultura » E ‘O Caso 39’, hein?

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Luiz Carlos Merten

23 Abril 2010 | 12h09

Depois do ‘Paciente 67’, de Dennis Lehane, que virou ‘Ilha do Medo’, um mau Martin Scorsese, eis que temos ‘O Caso 39’. Não sei por que, mas depois de tanto ver o cartaz (e o trailer…) de ‘Caçador de Recompensas’ no Marabá, achei que o filme com ‘Jen’ Aniston e Gerard Butler estava lá. Fui na terça e quebrei a cara, mas vi que havia estreado esse thriller/terror com Renee Zellweger. Nem sabia da existência do dito filme, mas voltei ontem para conferir. Adoraria ter gostado, nem que fosse para escandalizar, dizendo que mestre Scorsese coisa nenhuma, uma bela porcaria e bom mesmo era o Christian Alvart, que assina o ‘Caso’. Nem brincando vou fazer isso. O filme é horrível. Renee faz assistente social que põe no manicômio judiciário casal que tentou matar a filha. A história de abuso infantil toma outro rumo, pois a garota é o demo, com uma capacidade de penetrar no medo mais íntimo das pessoas, que passa a explorar. Lá pelas tantas, é a pobre Renee quem está entrincheirada no quarto, vendo seus entes queridos destruídos pela força maligna. O terror nem é tão gráfico, mas, na hora H, o diretor não resiste a mostrar o que se oculta sob a aparência da menina inocente e aparece o Pazuzu de ‘O Exorcista’. O ‘detalhe’ é que o casal não conseguiu matar a menina e, a partir de certo momento, o espectador torce para que Renee Zellweger a despache para o inferno, que é onde ela deveria estar. O que você acha? Ela vai conseguir? ‘O Caso 39’ parece seguir a trilha de ‘A Órfã’, mas é pior ainda – comparativamente, o filme espanhol até consegue ser interessante – e é preocupante que ambos explorem a mesma ideia da adoção como risco, atiçando o preconceito contra esse ‘outro’ (outra) cuja origem desconhecemos. Quero só acrescentar duas ou três linhas sobre Ian McShane, que faz  o detetive Mike Barron, que tenta dar sustentação à heroína, em sua luta contra a garota. McShane é um ator inglês que vem do começo dos anos 1960. Lembro-me de seu primeiro papel, em ‘Um Grito de Revolta’, de Ralph Thomas, em 1961, ou 62. Thomas era um diretor assalariado da Rank, que fazia cinema popular. Ele dirigiu a série ‘Doctor’, que fez de Dirk Bogarde um astro, antes que ele se convertesse em grande ator com Joseph Losey e Luchino Visconti. Um dos filmes, ‘Doctor at Sea’, se chamou no Brasil ‘A Noiva do Comandante’ e era co-estrelado pela jovem Brigitte Bardot, que estava a ponto, em 1955 ou 56, de se converter em estrela internacional. Ralph Thomas também dirigiu um pastiche de ‘Os 349 Degraus’, de Alfred Hitchcock, com Kenneth More e, se não me engano, Taina Elg. No começo dos anos 1960, seguindo o exemplo da nouvelle vague, os jovens ‘angry men’ do cinema e teatro ingleses estavam colocando na tela (e no palco) o mal-estar da juventude inglesa. Thomas, de sacanagem ou tentando refletir o espírito da época, fez ‘The Wild and the Willing’, o citado ‘Um Grito de Revolta’, com Ian McShane como jovem desajustado na (ainda) sociedade de classes britânica. Ele fez depois ‘trocentos’ filmes para TV e cinema, dividiu a cena (no teatro) com Dame Judi Dench. E pensar que tudo isso para terminar ameaçado pelos cães do inferno de ‘O Caso 39’. O horror, o horror…