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E o Bravo Ficou Só

Luiz Carlos Merten

07 Maio 2008 | 13h49

Ao redigir ontem pela manhã os filmes na TV da edição de hoje do ‘Caderno 2’, pensei que não poderia perder a oportunidade de postar alguma coisa sobre ‘E o Bravo Ficou Só’, que passa hoje às 22 horas no CNT. Não sei se vocês vão ver, mas não poderia perder a oportunidade. Charlton Heston foi tão vilipendiado por Michael Moore em ‘Fahrenheit 11 de Setembro’ e olhem que MM, por maior que tenha sido a repercussão alcançada por ‘Tiros em Columbine’ e pelo citado ‘Fahrenheit’, nunca vai ter a mesma importância do grande Heston para a história do cinema. Já falei bastante sobre o ator, quando ele morreu, há algumas semanas. Quero falar agora de Tom Gries, que dirige ‘Will Penny’, título original de ‘E o Bravo Ficou Só’. É um dos mais belos filmes que se inscrevem numa das tradições mais nobres do western – a dos caubóis solitários, representada por filmes como ‘O Homem sem Rumo’, de King Vidor, e ‘O Cavaleiro Solitário’, de Clint Eastwood, que não deixa de ser a reinvenção de ‘Shane’ (Os Brutos também Amam), de George Stevens. Sempre gostei de ‘E o Bravo Ficou Só’ e o filme surgiu naquele quadro do western crepúscular, pós Sam Peckinpah (‘Pistoleiros do Entardecer’) e John Ford (‘O Homem Que Matou o Facínora’). Nos anos 60, o mundo estava mudando e a tradição do western foi submetida a uma dura revisão. Havia até um filme que se chamava ‘Quando Morrem as Lendas’, com Richard Widmark. É mais ou menos o tema de Tom Gries, sobre caubói iletrado que está envelhecendo e encontra viúva com um filho, a quem protege do bando selvagem de Donald Pleasence. A paisagem é invernal e a trilha foi composta por David Raskin, compondo um retrato intimista e meio nostálgico de um Oeste que estava morrendo. O próprio Tom Gries morreu há bem uns 30 anos. Todo mundo vai dizer que virou um diretor medíocre, e eu até concordo, mas ele fez dois filmes pelos quais tenho verdadeira fascinação. Um é este western e o outro, ‘O Sistema’, um duro ataque ao sistema carcerário norte-americano, sobre um jovem que vai preso e prefere se matar a servir de mulher para o criminoso que controla a cadeia. “E o Bravo Ficou Só’ é de 1967. Tom Gries voltou ao western no ano seguinte com ‘Cem Rifles’, com Raquel Welch e Jim Brown, e o filme não era bom, embora causasse sensação ao explorar uma relação multirracial, bem de acordo com as transformações da época. Na minha cabeça, o ‘Bravo’ é indesligável de outro grande western fúnebre que William Fraker fez em 1970, com Lee Marvin e Jeanne Moreau. O título original era ‘Monte Walsh’ e no Brasil ficou ‘Um Homem Difícil de Matar’. Lee Marvin vê o mundo todo desmoronar ao seu redor. Morre a garota de saloon que ele ama (Jeanne) e com quem poderia ter refeito sua vida. Apesar do título brasileiro, o filme narra a trajetória dele para a morte. E as cores! William Fraker foi um dos maiores diretores de fotografia de Hollywood (‘Bullitt’, ‘O Bebê de Rosemary’ etc). Ele trabalhou a cor como áreas de sombra, à Rembrandt. E que filme mais triste! perto de ‘Monte Walsh’, até ‘Will Penny’ fica mais luminoso. São obras importantes do crepúsculo de um gênero que não sobreviveu às mudanças operadas pela estética dos efeitos especiais em Hollywood, a partir dos anos 70.