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Cultura » E o Belas Artes?

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Luiz Carlos Merten

07 Janeiro 2011 | 14h23

Somente agora pela manhã consegui falar com André Sturm sobre esse imbroglio que virou o fechamento do Belas Artes. Estou em São Paulo desde o final de 1988 e, nestes 22 anos, virei um frequentador do conjunto de salas. Sempre briguei muito com as poltronas do Belas Artes – elas podem ser anatômicas, mas eu não consigo me encaixar naqueles modelitos. Nem por isso deixei, ou deixaria, de ir ao Belas Artes. Vi grandes filmes, participei de debates, tive o privilégio de sessões exclusivas, com aquelas salas só para mim. Lá revi, uma das trocentas vezes, o meu amado ‘Rocco’ e quando se completaram 30 anos da morte de Visconti, em 2006, André Sturm organizou um ciclo só para que eu pudesse dar uma capa sobre o genial Luchino no ‘Caderno 2’. André não tem muita expectativa de que seja possível evitar o fechamento, ou então está guardando seus ases na manga. Como assessor do secretário de Estado da Cultura, ele acha que não é ético advogar em causa própria, mas, já que o dono está pedindo as salas de volta, uma possível solução, agora sou eu falando, seria o seu tombamento pelo Condephaat. E o poder público pode, sim, intervir, em casos de entidades de reconhecida importância cultural – o MinC colocou um monte de dinheiro na Bienal de São Paulo, que é uma fundação privada. A questão é como socorrer o Belas Artes? André Sturm acredita que talvez seja possível recriar as salas em outro local, porque não se trata só de um cinema, um espaço físico. É também um clima, um estado de espírito, um encontro (de sensibilidades). De minha parte já sugeri o Ipiranga, no centro, mas ele acha difícil, ou então o Marrocos, cujas salas estão em melhor situação, mas acho que o local, na Conselheiro Crispiniano, está comprometido com o projeto da Praça das Artes da Prefeitura. O importante é não deixar esse espírito morrer. Pedi a Carlos Reichenbach uma declaração e o Carlão me mandou um texto lindo, lembrando o cinema do Bernardo, como sua geração se referia ao Belas Artes, porque Bernardo Vorobov era o animador da programação. Carlão repassa os grandes filmes míticos que viu no Belas Artes, lembra uma grande retrospectiva do cinema revolucionário dos anos 1960. A menos que ocorra um milagre – qual? – ou haja vontade política, o Belas Artes fecha as portas em 27 de janeiro. Antecipando-se, André Sturm está programando, de 14 a 27, em duas salas, duas grandes retrospectivas. Uma, Tesouros do Cinema, com todos aqueles clássicos – ‘Potemkin’, sim, e ‘Kane’, e ‘Regra do Jogo’. A outra, com grandes filmes quer fizeram história no Belas Artes. ‘Pai Patrão’, dos Taviani; ‘Johnny Vai à Guerra’, de Dalton Trumbo; ‘Ensaio de Orquestra’, do Fellini; ‘Posessão’, do Andrzej Zulawski.Carlão diz uma coisa profunda no texto dele. Cada cinema de rua que fecha é o mesmo que uma biblioteca desativada ou uma praça depredada. Uma mobilização pelo Belas Artes talvez desse resultado. Mas como? Uma passeata? Um protesto? Abraçar o prédio?