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Luiz Carlos Merten

04 Junho 2011 | 12h06

RIO – Ele conseguiu, mais uma vez. Ele é Gabriel Villela, que assina montagem de ‘A Crônica da Casa Assassinada’, ´que meu amigo Dib Carneiro Neto adaptou do romance cult de Lúcio Cardoso. Viemos todos para o Rio – os parentes de Gabriel, de Minas; os irmãos do Dib, seu filho Heitor, eu. O teatro Maison de France reunia a fina flor do show biz da representação nacional – Fernanda Montenegro, Marieta Severo, Andrea Beltrão, Renata Sorrah, José Wilker. Chega? Thiago Lacerda foi prestigiar seu grande diretor em ‘Calígula’, que Dib também traduziu da peça de Albert Camus. Meu amigo está virando ‘o’ adaptador por excelência da cena brasileira. Dib condensou o romance de Lúcio em 30 cenas, sem fugir ao desafio de utilizar as ferramentas narrativas do livro – cartas, diários, solilóquios. Gabriel foi mais longe. Num extraordinário trabalho de depuração, desconstruiu as 30 cenas num espetáculo que dura pouco mais de uma hora (1h05/1h10, por aí). Lembrei-me muito da entrevista comn Woody Allen, em Cannes. Vou agradecer eternamente a Márcio Fraccaroli, da Paris Filmes, o privilégio daquela meia hora sozinho com Woody, que me falou da sua obsessão pela duração dos filmes. Cortar. cortar, cortar é seu primeiro mandamento. Não aborrecer nunca o espectador. No Brasil, no teatro, a maioria dos diretores de coletivos segue o caminho inverso, Estender, estender, estender. Ouso dizer que, na maioria das vezes, só o que isso expõe é a falta de rigor no exercício do método. Escrevi um texto na edição de ontem do ‘Caderno 2’, lamentando que Luchino Visconti ou Mauro Bolognini não tenham conhecido o livro, porque seriam os adaptadores ideais para o cinema. No teatro, nem Visconti teria sido sintético como Gabriel. Embora não tenha ido aos ensaios, acompanhei o processo de criação, as substituições – Cláudio Fontana, que produz impecavelmente a peça, faria Timóteo.  E sempre me pareceu que Gabriel estava tirando de letra a sua mise-en-scène. Tudo me parecia tão fácil. Outro dia, num jantar, ele me surpreendeu com a confissão – foi seu trabalho mais difícil, o que mais exigiu dele. Ontem, no foyer do teatro, seu primo Tadeu me deu a chave – ele disse que há muito da sua família, que há muito das famílias de Carmo do Rio Claro, onde Gabriel mantém seu sítio, na encenação. Ou seja, o livro e a peça do Dib foram as ferramentas, mas Gabriel colocou na ‘Crônica’ muito de observação pessoal e talvez mais do que isso. Lúcio tinha fama de ‘gótico’. Gabriel, até por ser mineiro, é ‘barroco’. Por paradoxal que seja, foi esse ‘barroco’, em nossos anos de convivência, graças ao Dib, quem me permitiu entender o estranhamento brechtiano. Brecht nunca falou em distanciamento crítico. O que ele buscava, ou propunha, era esse estranhamentro que vinha de uma decalagem entre a realidade e a sua reconstrução no palco, com a consciência de que nenhuma peça (ou filme) é a vida como ela é, mas uma ‘representação’. ‘Crônica’ narra a história da decadência de uma família mineira. Os Menezes se desintegram como a casa em que vivem, e ela é uma personagem tão importante quanto Nina, Timóteo,o jardineiro. A carioca Nina volta à casa para morrer. Embaralhando tempo e espaço, Lúcio – e Dib, e Gabriel – mostram como essa mulher desestabiliza tudo. Como cães no cio, todos os homens vivem se masturbando só à menção da proximidade dessa fêmea que em todos atiça o desejo. Gabriel, que eu me lembre, nunca carregou tanto no sexo numa encenação. Mas o sexo enquadra-se numa liturgia – da qual Timóteo, saindo de seu isolamento, vestido de mulher, é o transgressor-mor. Se existe um culto na ‘Crônica’, ele é o oficiante. Nina copula como uma cadela com o próprio filho, André, porque ele lhe lembra o amante, mas há uma revelação que muda o eixo para Ana, a cunhada rancorosa e ciumenta. Cenografia, figurinos, trilha – basicamente lindos e tristes trechos de ópera, além do acréscimo de ‘Pierrot Apaixonado’ e  ‘La Violetera’ -, tudo é excepcional. Em busca do estranhamento, a montagem tira o melodrama do texto e o põe na trilha. O elenco é poderoso. Carlos Kroeber, como Timóteo, era o que de melhor havia no filme que Paulo César Saraceni, amigo de Lúcio, adaptou do romance, em 1971. Sérgio Rufino, que agora faz o papel no teatro, não tem a figura barroca, a obesidade de eunuco de Carlos Kroeber. Assisti a duas representações da peça. Na quinta, para uma plateia de estudantes de teatro, eles riram e isso levou Rufino a enveredar por uma linha que me desconsertou. Ontem, ele usou uma envergadura trágica e achou o tom certo (para mim). Quem ainda não me parece nos trinques é Xuxa Lopes, que faz Nina, a personagem de Norma Bengell no filme. Xuxa é de uma entrega radical – e ela superou seus limites, ou inibições, tirando a roupa e simulando diversos tipos de relação sexual em cena. Mas eu ainda não me convenci com o que deveria ser o ‘distanciamento’ na composição da personagem. Tem ali uma nota que ainda me parece falsa e que espero que Xuxa, orientada por Gabriel (se concordar comigo), corrija para que o espetáculo cresça ainda mais. ‘Crônica da Casa Assassinada’ está dando o start para as comemorações do centenário de nascimento de Lúcio Cardoso, no ano que vem. A peça, por questões contratuais – o patrocínio – teve de estrear no Rio. Ainda não tem data em Sâo Paulo. Danilo Miranda, do Sesc, não vai privar os paulistanos dessa puta experiência estética, espero.