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Luiz Carlos Merten

18 Outubro 2010 | 11h41

No catálogo de ‘Gypsy’, há um texto de Charles Möeller e Claudio Botelho – ‘Strip-tease de um sonho’ – que eles terminam da seguinte maneira. “Há quem diga que tem gente que ama e gente que detesta musical, seja lá o que for. Mas há um dito popular que diz – ‘Se você conhece alguém que detesta musical, manda essa pessoa assistir a Gypsy. Se ela sair de lá sem mudar de ideia, não tem jeito. É um caso perdido.’ Aleluia! Estou convertido. Gostei de ‘Gypsy’. No primeiro ato, com exceção do número da vaca, que achei deliciosamente paródico, estava detestando. Aquele público de colonizados acha que a glória do musical brasileiro é imitar a Broadway. O sapateado é uma tradição ‘deles’. Basta alguém sapatear num musical de Möeller e Botelho – e os elencos deles sapateiam um bocado – para aquelas plateias entrarem em alfa. Eu confesso que me emociono muito mais com qualquer passista de escola de samba. Fred Astaire bastava um. Imagino que a plateia de ontem levantaria e iria embora, se os passos no palco fossem outros. Mas algo se passa no segundo ato. A cena dos bastidores do teatro de revista, as três vedetes strippers, pode respeitar escrupulosamente o original, mas dialoga com a tradição da própria revista brasileira. Möeller e Botelho, justiça seja feita, já fizeram seus musicais ‘brasileiros’ (um sobre Lupicínio, me lembro) e retomam essa vertente, combinando tendências. Essa segunda parte fica progressivamente mais dramática – melodramática, no melhor sentido ‘sirkiano’ do termo. O confronto entre mãe e filha faz surgirem faíscas no palco, mas, ao contrário de Juanita Moore e Susan Kohner em ‘Imitação da Vida’, Totia Meireles e Adriana Garambone resolvem o impasse de sua relação no desfecho. Gostei demais das duas. Adriana vem para o agradecimento, no final, com o penteado e o vestido de Natalie Wood no filme – já era uma criação da Broadway ou foi invenção da equipe de Mervyn LeRoy? Já escrevi aqui. ‘Gyspsy’ virou musical do diretor que se destacara, nos anos 1930, por seus filmes realistas, de gângsteres. Qualquer historiador vai referendar a importância de LeRoy – que ele foi perdendo, até chegar a um melancólico fim de carreira. Não sei por que, mas a Warner, ao adaptar o musical de Arthur Laurens, Stephen Sondheim e Jules Styne, minimizou o formato ‘musical’ e carregou no drama, talvez porque ‘A Mulher do Século’ (Auntie Mame), de Morton Da Costa, também com Rosalind Russell, havia tubulado na bilheteria e ninguém queria ver a grande ‘Rose’ entrando pelo cano pela segunda vez seguida. (‘Mame’ também foi musicalizado, mas Da Costa se baseou diretamente na peça de Jerome Lawrence e Robert E. Lee, por sua vez baseada no livro de Patrick Dennis. Lembro-me de haver assistido à versão brasileira com Dulcina, no Teatro São Pedro, em Porto. Quando? Em 1960? Por aí…) ‘Gypsy’, o filme, como a peça, apresenta o retrato definitivo da mãe de miss (ou de jovens talentos). A própria Rose toma consciência de que projeta nas filhas a própria incapacidade de ter virado estrela. Gostei demais do segundo ato de ‘Gypsy’. Möeller e Botelho acertaram. Ontem, por ser a despedida, o Alpha estava lotado, mas a temporada não foi boa. O público de São Paulo não gostou.