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Cultura » E Kaurismaki?

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Luiz Carlos Merten

23 Maio 2011 | 05h02

CANNES – Estou aqui no hotel, fazendo a mala e me preparando para voar para Paris, onde devo ficar durante toda a semana,voltando sábado para o Brasil. Quero ver a exposição de Kubrick na Cinemateca (ou será no Beaubourg?) e estou nos cascos para rever ‘Vendaval na Jamaica’, de Alexander Mackendrick, que reestreou em cópia nova. Mackendrick deve sua fama às comédias de humor negro e a ‘Embriaguez do Sucesso’, mas eu confesso que tenho uma queda por seus filmesa sobre a infância, não apenas a aventura de piratas com Anthony Quinn, mas também aquele outro filme sobre a travessia do deserto, com Edward G. Robinson. Estou louco para colocar os olhos no ‘Pariscope’ e ver o que o Action Cristine, no Odéon, e a Filmoteca do Quartier Latin estão apresentando. Sempre tem coisas boas nesses cinemas, isso sem falar no Reflets Médicis, que inicia na quarta a reprise de ‘Un Certain Regard’ em Paris. A m… é que o coreano ‘O Matador’, The Murderer, que adoraria ter visto, passa no domingo e e eu já estarei, espero, no Brasil. Estou morrewndo de saudades de minha filha (Oi, Lúcia). Como estão o Érico, a Angel? Estou achando que fui muito duro com o júro presidido por Robert De Niro, talvez porque tenha me impressionado mal aquele ‘the best we could’. Já disse, e repito, que não gosto particularmente de ‘The Tree of Life’ e até me irrito com o modelo ‘Salinger de segunda mão’ de Terrence Malick, mas não creio que tenha sido uma escolha indigna. Amei os prêmios de interpretação, com aquele desabafo da Kirsten Dunst – ‘What a week!’, Que semana! -, e o charme viril do ‘magnífico’ Jean Dujardin, que a imprensa daqui chama de sucessor de Jean-Paul Belmondo. Duduj foi elegante. Agradeceu ao diretor, à colega de elenco (a bela Bérénice Bého) e a sua mulher (a atriz Alexandra Lamy) e depois disse que ia se calar, porque o silêncio lhe cai bem. ‘O Artista’, grande filme popular de Michel Hazanavicius, que lhe valeu o prêmio, conta – em preto e branco e sem diálogos – a história de um astro do cinema silencioso cuja carreira vai para o ralo com o advento do sonoro. Pode ser que me engane, mas pressinto que esse filme vai ser o hit internacional do cinema francês no ano. Mas tenho de admitir que preferia que Nuri Bilge Ceylan ganhasse sozinho o grande prêmio, ou então fosse o melhor diretor, por seu poderoso ‘Era Uma Vez na Anatólia’. Não engoli o prêmio de mise-en-scène para o estiloso e violento ‘Drive’, de Nicolas Winding Refn, com Ryan Gosling, mas vou dar a mãso à palmatória. O filme já nasceu cult e sai daqui de Cannes como preferido da crítica jovem. O que não perdoo a De Niro foi haver se esquecido de ‘Le Havre’, de Aki Kaurismaki, que ganhou o prêmio da crítica. Jude Law citou o Kaurismaki e disse que o júri precisaria de mais do que sete prêmios para recompensar tudo aquilo de que gostou. Almodóvar, Moretti, Sorrentino – gosto deles, não de seus filmes atuais. Seria um escândalo se ganhassem. Nivelar o Kaurismaki com eles foi covardia, quase tão grande quasnto premiar ‘Poliss’, de Maiwenn, para ficar bem com os franceses. Acho que seria demasis cobrar de De Niro pelas Kawase, mas Kaurismaki ‘cadê tu’?