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E Joy é o Oito e Meio do Fellini de Hollywood

Luiz Carlos Merten

13 Janeiro 2016 | 21h47

Confesso que nunca fui muito fã de carteirinha de David O Russell, exceto lá atrás, no começo da carreira dele, quando fez Procurando Encrenca e Três Reis. Gostei mais de O Lado Bom da Vida e Trapaça por causa de Jennifer Lawrence, mas hoje tenho de admitir que, para minha surpresa, amei Joy – O Nome do Sucesso. Vi o filme na cabine de imprensa hoje pela manhã e até esqueci de que estava morrendo de dor nas costas, como se estivesse com alguma costela quebrada ou o quê. A dor só piorou, fiz minhas matérias no jornal – a entrevista com Todd Haynes, por causa de Carol, que estreia amanhã – e corri para o Hospital 9 de Julho, meu segundo lar, com medo de que pudesse ser alguma funesta herança do meu festival de pinga, lembram, quando caí no banheiro e me arrebentei. Não, não tem nada quebrado, mas a dor é real. E essa! “Vamos’ ter de investigar. Volto ao Joy. De tanto ouvir dizerem que ele era o Federico Fellini americano, Russell terminou por acreditar e fez o seu Oito e Meio. Joy tem uma estrutura similar, misturando presente, passado/lembranças de infância e projeções do inconsciente, tudo narrado não pela personagem de ‘Jen’, mas por sua avó, que prevê para ela um futuro glorioso. Só que o futuro não vem, Joy vive uma decepção atrás da outra até que…. Olha o spoiler! Mesmo sendo primo irmão de Oito e Meio, Joy não é sobre um diretor de cinema, embora tenha uma passagem pela TV e, justamente nessa cena, o diretor revela o cenário (a emissora) e cria um set gigantesco e circular como o circo de Federico. Russell é um autor e um diretor crítico, mas também é (norte)americano e prefere – 1) fazer seu Oito e Meio do ângulo de uma mulher, e isso significa oferecer a Jennifer Lawrence mais um grande papel, que ela interpreta com gosto, e não por acaso, ganhou o Globo de Ouro de melhor atriz de comédia; e 2) de novo por ser ‘hollywoodiano’, Russell não fala de ‘arte’, como Fellini, mas de ‘comércio’. Jennifer é uma inventora e cria um produto de tele-venda que, no limite, o (sub)título entrega, vai arrebentar ou seu nome não seria o do sucesso. Uma coisa sempre achei que Russell fazia, e bem – dirigir atores. Jennifer, Robert De Niro, Isabella Rossellini, Virginia Madsen, Diane Ladd, Bradley Cooper e Edgar Ramírez, o Carlos de Olivier Assayas, estão todos ótimos e a ‘Jen’, magnífica. Tenho até medo de acordar e descobrir que Joy não é tão bom como me pareceu. Mas é, sim, e eu me emocionei muito com o reencontro de Jennifer e ‘Brad’, a dupla fetiche de David O Russell, e a outra cena em que ela, poderosa, recebe a garçonete que vem lhe mostrar seu invento. Há ali uma generosidade, uma delicadeza que me lavaram a alma desse mundo competitivo e desumano em que vivemos.