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Luiz Carlos Merten

09 Junho 2012 | 11h13

Começar por onde? Pelo princípio, claro. Na terça, fomos, Dib Carneiro e eu, assistir nos Parlapatões à bela adaptação de Paolo  e Francesca. O inferno de Dante começa como farsa, uma representação do inferno que não me caiu muito bem, muito gritada, me  incomodou. E aí se fez o mistério. Entraram os protagonistas, jovens e belos. Ela, nem sei o nome, é éblouisasante, como diriam os franceses. Ele transpira o fogo da paixão. Dizem o texto poético com intensidade, mas eu não pude deixar de pensar na contribuiição que Francesca Della Monica poderia dar ao espetáculo, com sua capacidade de retirar da voz dos atores modulações que eles nem sabem possuir. Francesca, por sinal, está no Brasil. Acompanha hoje Gabriel Villela na apresentação de ‘Romeu e Julieta’, o espetáculo que o Grupo Galpão levou ao Globe, na praça do papa, na capital mineira. Cheguei a pensar em ir, mas passei uma semana do cão, tossindo, o peito congestionado. Nem me lembro mais se foi quarta ou quinta, fui ver ‘Sinfonia Prateada’, Has Anybody Seen My Gal?, de Douglas Sirk, no ciclo do CCBB. Embora tenha me referido diversas vezes ao filme em textos – sobre Sirk e James Dean, que tem um perqueno papel, na fase anterior ao estrelado, com o garoto viciado em sorvete – não o conhecia e foi uma descoberta. Gostei. Na mesma noite vi o Hirokazu Kore-eda, ‘O Que Eu Mais Desejo’, que amei. Creio mesmo que se trata do mais belo filme que vi este ano, incluindo os das seleções de Berlim e Veneza. Dois irmãos que vivem separados, um com a mãe, outro com o pai. O mais velho sonha com a reconstituição da família. Que meninos mais bonitos e a ideia, o conceito… O mais velho convence todo mundo a formular seus votos, mas não em algum santuário e sim, no alto de uma plataforma de onde poderão ver passar o trem bala. O novo Deus, a tecnologia. Kore-eda já contara a história de outros irmãos em ‘Ninguém Pode (ou Precisa) Saber’. E ontem, finalmente, assisti, numa sessão exclusiva, ao ‘Fausto’ de Alexander Sokurov. Sinceramente, não sei o que dizer, exceto que o filme me perturbou muito, embora não, talvez, pelos mesmos motivos que perturbaram a tantas pessoas que dizem que o amaram. Saí do cinema me interrogando – mas o que é o cinema, afinal? É uma mídia que nasceu popular, na feira, e que Sokurov, como outros autores, tenta transformar em arte erudita. Alta cultura, consciente de si. O filme fecha a tetralogia do poder do cineasta russo. ‘Moloch’, ‘Taurus’, ‘O Sol’ e agora ‘Fausto’, sugerido pela, não uma adaptação literal da obra de Goethe. Achei, em princípio, que se trata do menos ‘resolvido’ dos quatro filmes, sendo o melhor o terceiro, sobre Hiroito, que é realmente uma ousadia e uma loucura. ‘Fausto’ me pareceu muito comprometido com a forma de ‘Arca Russa’, que não é o meu Sokurov preferido. A experimentação com o digital alterna imagens grandiosas com outras que me parecem bem banais, captadas não importa como. Amei, justamente por ser árdua, a cena inicial, a da lição de anatomia. Está tudo ali – a carne, o sexo, o dinheiro, a comida. ‘Fausto’, como toda a tetralogia, é sobre a sede de poder. Após o começo forte, o filme me deu a impressão de patinar, até que, no terço final, na relação Fausto/Diabo/Margarida, Sokurov retoma a mão. Isso aqui, naturalmente, não é um texto definitivo. Até a estreia, pretendo concatenar melhor as ideias. Qu’est-ce que le cinéma? Sokurov, sem que eu tenha conseguido formalizar muito bem o pensamento, estás na vertente de Peter Greenaway, que recusa o cinema narrativo, clássico, reprodutor do real, mas que se apropria do erudito em busca de uma nova expressão. Mal comparando, JRR Tolkien e C.S. Lewis fizeram isso na literatura, criando sagas modeladas a partir de lendas e mitos. Sokurov trabalha o mito de ‘Fausto’, mas houve momentos em que suas imagens me pareceram a reboque do texto e eu me perguntava – é isso o cinema? É? Honestamente, tenho minhas dúvidas.