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Luiz Carlos Merten

14 Abril 2009 | 15h29

Luiz Zanin Oricchio já está no Rio, onde hoje à noite comenta a festa de premiação da Academia Brasileira de Cinema, que terá transmissão direta pelo Canal Brasil. O 7º Grande Prêmio Vivo do Cinema Brasileiro contempla 25 categorias e inclui filmes de curta e longa-metragem, lançados no ano passado nos cinemas. Dois filmes lideram a disputa, cada um com 14 indicações – ‘Estômago’, de Miguel Jorge, com João Miguel, e ‘Meu Nome não É Johnny’, de Mauro Lima, com Selton Mello. Não sei exatamente quem está indicado nem quem concorre a quê, mas presumo que os dois filmes em questão, para ficar neles, estejam indicados a filme, diretor e ator. Por mais simpático que seja a ‘Johnny’ e a Mauro, e a Selton, votaria em ‘Estômago’, Miguel Jorge e João Miguel. A questão é – quem concorre com eles? ‘Linha de Passe’? Aí a coisa já fica mais complicada… Como no ano passado, a academia atribui um grande prêmio de carreira. No ano passado, o homenageado foi Renato Aragão, o Didi. Este ano, a Academia de Cinema homenageia o único cineasta brasileiro que já é acadêmico de fato e de direito – Nelson Pereira dos Santos, integrante da Academia Brasileira de Letras. Nelson é uma figura histórica importantíssima do cinema brasileiro. Seu começo, incorporando o neo-realismo, fez história com ‘Rio 40 Graus’, seguido de ‘Rio Zona Norte’ e ‘Boca de Ouro’, adaptação da peça de Nelson Rodrigues em que Odete Lara usa aquele vestido de bolinhas (costurado no corpo?) que faz dela um monumento de sensualidade. Outras duas adaptações, de Graciliano Ramos, ‘Vidas Secas’ e ‘Memórias do Cárcere’, estão entre os maiores filmes brasileiros de todos os tempos e Nelson ainda fez ‘Fome de Amor’, que amo, ‘Como Era Gostoso o Meu Francês’, ‘O Amuleto de Ogum’ e ‘A Estrada da Vida’, pelo qual tenho um carinho especial. O filme com Milionário e Zé Rico não deixa de ser um pré-‘2 Filhos de Francisco’, com aquela cena linda do despertar da classe operária e a idéia generosa de filmar o artista como trabalhador. Gostaria de (re)ver ‘Cinema de Lágrimas’, em que o diretor se voltou para o melodrama para refletir sobre o popular na cultura latino-americana. O Cinema Novo, de essência revolucionária – e Nelson foi um de seus arautos -, colocava o povo na tela (‘mais fortes são os poderes do povo’, bradava Glauber em ‘Deus e o Diabo’), mas o povo desertava das salas, admitia Nelson em seu documentário. Como conciliar o nacional e o popular, como ser ‘gramsciano’ – nossa, essa veio do baú: Gramsci em plena globalização? – sem ser popularesco nem abrir mão da pesquisa estética? Em seus melhores momentos, a obra de NPS responde a essa questão. E, por isso, todos os seus (possíveis) erros lhe serão perdoados.