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Luiz Carlos Merten

27 Julho 2007 | 08h20

É hoje! Tanto tenho falado aqui de O Chacal de Nahueltoro e da impressão, melhor dizer comoção, que me provocou o filme de Miguel Littin quando o assisti pela primeira vez, no Uruguai, há mais de 30 anos – a maioria de vocês não havia nascido ou estava engatinhando –, que estou muito curioso para saber qual será a reação do público, principalmente dos jovens, na exibição desta noite, às 21 horas, no Memorial da América Latina, dentro do 2º Festival do Cinema Latino-Americano. Comprei um livro de uma historiadora chilena, Jacqueline Mouesca, quando estive em Santiago, em janeiro. Somente ontem dei uma folheada, em busca de informações, e descobri que ela diz que uma enquete internacional apontou O Chacal e Três Tristes Tigres, que Raul Ruiz realizou no Chile, antes do golpe militar – portanto, antes do exílio na França –, como dois dos dez maiores filmes do cinema latino-americano. Ela não diz que enquete foi essa. Quando foi, quem votou, o que diminui a força da afirmação. Mas é este filme que vocês poderão ver hoje à noite. Às cinco da tarde, também no Memorial, passa outro filme fundamental – Las Aguas Bajam Turvias, de Hugo Del Carril, considerado o filme que deu projeção internacional ao cinema argentino, em 1951 (como O Cangaceiro, de Lima Barreto, botou o Brasil no mapa do cinema mundial, em 1953, ao ganhar aquele prêmio em Cannes). Las Aguas trata da exploração de trabalhadores braçais no Alto Paraná, uma região de extensas plantações de erva-mate. O quadro é um pouco o mesmo de Selva Trágica, de Roberto Farias, para mim um dos grandes filmes da história do cinema brasileiro. Del Carril foi ator de rádio e cantor de tangos antes de virar cineasta. Peronista histórico, ele usa seu filme para fazer um pouco de doutrinação sobre a importância do sindicato, mola-mestre do peronismo. Era um primitivo, um intuitivo, se preferirem, mas tinha um domínio da luz, do plano, do movimento, e define tão bem a natureza dos conflitos humanos e sociais, que Las Aguas adquire a estatura de uma tragédia latino-americana. Exagero? Espero que não. O curioso é que Del Carril foi à fonte do neo-realismo, que também forneceria a base para Nelson Pereira dos Santos, quando fez, um pouco mais tarde, no Brasil, Rio 40 Graus e Rio Zona Norte. Ambos, Del Carril e Nelson, mostraram que um cinema latino era possível, feito com poucos recursos mas capaz de refletir a realidade social de países como Argentina e Brasil.