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Luiz Carlos Merten

30 Janeiro 2010 | 09h58

TIRADENTES – E a 13ª Mostra de Cinema termina hoje à noite, com a entrega dos prêmios aos vencedores. Falo em prêmios, no plural, porque existem aqui três júris – o da crítica, na Mostra Aurora, que integro; o da crítica jovem; e o do público. Somos orientados a outorgar um prêmio, apenas, embora, eventualmente, possa ser conferida uma menção especial. Daqui a pouco nos reunimos para as deliberações. Acredito que serão tranquilas, precedidas, como foram, por outras discussões que já apontaram para uma definição. Vai acabar meu voto de silêncio. Arre! Do que posso falar, sobre os filmes fora de concurso, já disse quanto adorei o filme de Gustavo Spolidoro ‘Morro do Céu’, o único a bagunçar minha preferência pelo que considero melhor na Mostra Aurora. Mas eu também gostei muito de ‘Bel Air’ e gostei principalmente de ter revisto o documentário de Bruno Safadi e Noa Sganzerla (a que assisti pela primeira vez no Festival do Rio) sobre a produtora fundada pelo pai dela, em parceria com Júlio Bressane, e que em três meses fez sete filmes. O ano era 1970. o País vivia sob uma ditadura feroz e as pesquisas de Rogério Sganzerla e Bressane foram consideradas perigosamente subversivas, integrantes de um plano com ramificações na guerrilha urbana. A Belair estaria lançando suas bombas no cinema, o que não deixa de ser verdade (mas não a aliança da guerrilha artística com a guerrilha armada). A pressão foi tanta que Sgarnzerla, Bressane e Helena Ignez partiram para o exílio. Todos esses filmes permanecem inéditos, embora já tivessem sido parcialmente resgatados em ‘A Miss e o Dinossauro’, espécie de making of que Helena fez de ‘Sem Essa, Aranha’ e ‘Cuidado, Madame’, dois marcos da Belair. Seria interessante recolocar todos esses filmes em circulação, em DVD, se não necessariamente nas salas, como tantos resgates que têm sido feitos ultimamente. Na verdade, acho que merecem voltar ao cinema e serão descobertas enriquecedoras, embora não para todos os gostos, claro. O próprio fato de ter percebido o potencial de biscoito fino desses filmes da Belair não me leva a defender que o cinema brasileiro tenha de ser assim. Deus me livre! Não quero fazer uma defesa babaca da diversidade, mas também não vou entrar nos tais ‘paradoxos da contemporaneidade’, tema da Mostra de Tiradentes deste ano, com direito a debate que ocorre agora à tarde. Seria como tentar defender Sundance como alternativa a Hollywood, quando Sundance já engendrou uma nova fórmula, ou novo academicismo, enquanto o cinemão se renova com muito mais vigor e inteligência. (A relação entre cinema de autor e comercial no Brasil não é a mesma, ressalte-se.) Mas vejam ‘Precious’, no caso do embate Sundance/Hollywood, e depois me digam se não. Sei que Júlio Bressane é reticente ao rótulo de marginal, que considera pejorativo para o cinema que Sganzerla e ele faziam no começo de suas respectivas carreiras, mas Bressane rompe seu véu de silêncio – talvez por causa de Noa Sganzerla – e desembesta a falar coisas muito legais sobre a Bel-Air. (Aliás, se faço agora uma crítica negativa é ao número de entrevistas listadas no final, com 1001 pessoas. Onde foram parar?) Gosto demais do filme e apoio muitas coisas que Daniel Caetano disse no debate, como crítico convidado para debater ‘Belair’, substituindo Inácio Araújo, que não deu as caras. Não fiquei até o fim do debate, porque tinha compromisso, mas gostei da abordagem de Caetano – seu foco foi na Belair como representação de um cinema de resistência e, falando de ontem, na verdade ele falava de hoje, tomando posição -, mas não concordo com seu sentimento de derrota. Ele disse que chegou ao final de ‘Belair’ triste. Encontrei Bruno Safadi à tarde e lhe disse que meu sentimento foi inverso, de júbilo. O filme resgata coisas ótimas, imagens que me impactaram e traz aquela Helena Ignez divina-maravilhosa, e na verdade ‘eles’ venceram, sim. Bressane foi o homenageado de Gramado, no ano passado, recebendo o maior prêmio de carreira do festival que antes o ignorava. Helena venceu o Kikito e com um filme, ‘Canção de Baal’, na melhor tradição do cinema marginal. Esta tradição está viva aqui em Tiradentes, num filme que amei particularmente. Vou ter um dia cheio, não poderei postar muita coisa. Espero retomar a conversa amanhã.