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Luiz Carlos Merten

06 Dezembro 2009 | 12h32

Tudo bem, sou colorado e o que vou dizer talvez seja comprometido por essa observação inicial. Vou torcer pelo Grêmio e gostaria de ver o tricolor desfalcado colocar de joelhos o imperador Adriano, mesmo reconhecendo que é tarefa difícil. Não seria impossível, para o Grêmio, se lutasse em causa própria, que o diga o documentário – épico – que reconstitui a batalha dos Aflitos. Mas não posso deixar de tergiversar um pouco. Há dias que estou para escrever isso. Não creio que essa discussão toda e a existência de comunidades defendendo que o Grêmio resista ou entregue, no Orkut, seja indesligável do que se passa no País. Tantas denúncias de corrupção, tanta impunidade que as pessoas começam a querer seu quinhão. Pessoas certamente honestas, que estão criticando o Sarney, o Lula por suas alianças, mas talvez não vejam nada demais em que seu time entregue o ouro para prejudicar o adversário principal e o do Grêmio não é, nunca foi, o Mengão, mas o glorioso Inter. É um sinal dos tempos, mais um, e se escrevo isso é porque estou agora no jornal, redigindo os filmes na TV de amanhã e a Globo põe em votação, no Intercine de terça, dois filmes (como sempre), sendo um deles o ‘Cinderella Man’, de Ron Howard, com Russell Crowe na pele do pugilista James J. Braddock. Comecei a viajar em filmes de boxe. Existem todos aqueles clássicos que o cinéfilo reconhece – ‘Touro Indomável’, de Martin Scorsese; ‘Punhos de Campeão’ e ‘Marcado pela Sarjeta’, de Robert Wise; ‘O Invencível’, de Mark Robson etc. São tantos, mas o meu favorito, o meu cult, é ‘A Grande Esperança Branca’, de Martin Ritt, com James Earl Jones, anos antes de emprestar sua voz a Darth Vader. É a história do pugilista Rafe Jefferson, que desafiou duplamente a supremacia wasp no racista Sul dos EUA, uma por ser negro e ter aquela força nos punhos e outra por ter se ligado a uma branca, interpretada por… Jane Alexander. Havia me dado um branco. Sabia quem era, claro, mas não me vinha o nome da atriz. Fui ao ‘Guia de Filmes’ do Leonard Maltin, que está aqui à mão e achei bem interessante o que ele diz – não é um filme de boxe nem uma obra de doutrinação social, mas um estudo de personagens fortemente emocional. Discordo de Maltin quando ele diz que o filme prende a gente do começo até quase o fim, porque, para ele, o desfecho não soa verdadeiro – eu gostava justamente do fim, mas faz tempo que não (re)vejo ‘A Grande Esperança Branca’. Por que estou lembrando filmes de boxe? Porque justamente em muitos desses filmes existem lutas arranjadas, que lutadores em busca de afirmação pessoal – o Robert Ryan de ‘Punhos de Campeão’ (The Sert-Up) – terminam vencendo, quando deviam perder, e sofrem, brutalmente as consequências. O cinema me levou a acreditar na grandeza humana, tanto quanto a tentar compreender (e aceitar) a miséria. Não são necessariamente opostas. Cada um de nós as carrega e, quem disser que não, estará mentindo para si mesmo. Imagino que todo jogador do Grêmio esteja hoje pensando nisso, resistir ou entregar. Dava filme, hein?