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Luiz Carlos Merten

17 Maio 2010 | 10h33

CANNES – E Jean-Luc Godard não veio. A coletiva dele, hoje à tarde, prometia ser o evento deste 63º festival. Havia gente acampada na sala de conferências, fazendo fila desde antes do coletiva de Takeshi Kitano (às 12h30 locais), para ver a de Godard (às 13h45), com medo de que a sala fosse insuficiente para abrigar as centenas de jornalistas que queriam ouvir falar o último revolucionário da nouvelle vague. Godard invocou sei lá que motivo para não vir, frustrando seus admiradores e também aqueles que pelo menos esperavam vê-lo polemizar com seu ‘Film Socialisme’. Dizem quie ele enviou uma carta ao festival, se desculpando. Não a encontrei no site. Não falo do filme, porque vou vê-lo daqui a pouco. Na hora da primeira projeção, estava entrevistando o alemão Hochhausler. Mas vou aproveitar para contar uma história ótima de Jean-Luc. Ele é o entrevistado deste mês da revista ‘Les Unrocktibles’. A revista editou um fascículo com a entrevista, que distribui pela Croisette. Godard esculhamba antigos colegas da nouvelle vague. O entrevistador lhe pergunta se é mesmo verdade que ele achava os filmes de François Truffaut nulos. Ele diz que não mais do que os de Claude (Chabrol). Não é que sejam nulos, esclarece, mas não são os filmes pelos quais sua geração fez a nouvelle vague. Sei que vários de vocês amam Truffaut mais do que eu. Gosto dele pontualmente, sobretudo de ‘L’Enfant Sauvage’, mas não me impressiono muito com os filmes físicos de Truffaut sobre o amor. Acho aquilo muito pequeno burguês para o meu gosto, embora entenda como e por que os outros gostam de ‘A Mulher do Lado’, por exemplo. Mas a história ótima é a seguinte – o repórter insiste. Truffaut se aborrecia por que Godard o considerava nulo? Ele responde – o pobre François se aborrecia porque adoraria retribuir, mas nunca teve coragem de dizer de dizer que também considerava os filmes de Godard nulos. Arrogância godardiana? Pode ser, mas estou louco para ver ‘Film Socialisme’. Depois eu conto.