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E foi-se Jack Cardiff

Luiz Carlos Merten

23 Abril 2009 | 15h38

Falamos aqui outro dia sobre Jack Cardiff como diretor de ‘Os Mercenários’, filme homônimo da produção que Sylvester Stallone está filmando no Rio. O ‘Mercenários1’ original chama-se ‘Dark of the Sun’ e é de 1967, com Rod Taylor, Jim Brown e Yvette Mimieux. Aproveitei para lembrar que Cardiff foi grande diretor de fotografia. Jean Tulard chega a dizer em seu ‘Dicionário de Cinema’ que ele era considerado o melhor de todos por seu trabalho com diretores como Alfred Hitchcock (‘Sob o Signo de Capricórnio’), John Huston (‘Uma Aventura na África’) e Joseph L. Mankiewicz (‘A Condessa Descalça’), esquecendo-se de citar a colaboração de Cardiff com Michael Powell e Emeric Pressburger em ‘Narciso Negro’, pelo qual ele ganhou o Oscar em 1948. Cardiff recebeu outro Oscar – honorário, de carreira – em 2001. Pois ele morreu, aos 94 anos. Como outros grandes fotógrafos, caso, especialmente, de Rudolph Mate, ele virou diretor de filmes medianos, embora talvez esteja sendo sevwero demais. ‘Filhos e Amantes’, adaptado de D.H. Lawrence, foi um filme que me impressionou muito – um pouco porque era garoto e consegui entrar num filme que na época era proibido. Como nunca revi a produção de 1960, não sei se ela se sustenta, mas quero crer que sim, até porque o roteiro era de Gavin Lambert, um cara exigente. Dean Stockwell fazia o garoto cobrado pela mãe para ser algo mais do que minerador, ou bêbado como o pai. Wendy Hiller, Mary Ure e Trevor Howard estavam no elenco e o filme era esplendidamente fotografado em preto e branco. Cardiff fez depois ‘Minha Doce Gueixa’, com Shirley MacLaine como atriz que se disfarça como japonesa para interpretar ‘Madame Butterfly’ numa versão que o marido dela, Yves Montand, está fazendo no próprio Japão. Na sequência, veio ‘O Leão’, baseado numa história de Joseph Kessel, o mesmo autor de ‘A Bela da Tarde’; ‘Os Legendários Vikings’, aventura nas pergadas da muito superior ‘Vikings, os Conquistadores’, de Richard Flçeischer; e ‘O Rebelde Sonhador’, cinebiografia do dramaturgo e escritor irlandês Sean O’Casey, na qual substituiu John Ford, forçado a abandonar a produção. Em 1968, o ano que nunca acaba, Cardiff cometeu ‘A Garota da Motocicleta’, com Alain Delon e Marianne Faithfull, um filme de fotógrafo (no pior sentido) contando, por meio de imagens rebuscadas e carregadas de efeitos, a história adaptada do livro de Pieyre de Mandiargues, que esvaziou do erotismo que lhe dava sentido. No conjunto, Jack Cardiff pode ter decepcionado no desenvolvimento de sua carreira, mas eu carrego comigo ‘Filhos e Amantes’ e, como fotógrafo, ele foi realmente dos melhores. Em 1975, cansado ou insatisfeito com a carreira de realizador ele voltou a cuidar da imagem, fotografando ‘Morte sobre o Nilo’, de John Guillermin, e ‘Conan, o Destruidor’, de Fleischer. As imagens de Karnak eram impressionantes na adaptação de Agatha Christie, mas não tenho muito boa lembrança do visual do segundo ‘Conan’, embora tenha sido dirigido por meu querido Fleischer, tão grande quanto subestimado.