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E estou perdendo a Mostra CineBH!

Luiz Carlos Merten

26 Outubro 2016 | 11h11

Estou adorando meus programas na Mostra, mas não posso deixar de registrar que, por causa da Mostra daqui, estou perdendo a de Belo Horizonte. Neste ano de Olimpíada, as datas embolaram todas, para minha tristeza. Todo ano, a Universo Produção, de Minas, realiza três grandes eventos de cinema que se estruturam como um tripé. No começo do ano, em janeiro, a Mostra de Tiradentes, que abre uma janela para o cinema autoral e de experimentação. Na metade do ano, a Mostra de Ouro Preto, dedicada ao cinema de arquivo e à memória. E mais para o final do ano – em 2016, entre 20 e 27 de outubro -, a Mostra CineBH, mais voltada ao mercado e analítica de tendências. Sempre tiro pelo menos uma casquinha da Mostra CIneBH. Desta vez, não deu. Para esta edição, além do já tradicional Brasil Cinemundi, que promove encontros de profissionais brasileiros e internacionais, os curadores Francis Vogner e Pedro Butcher se pautaram pelo tema ‘Plano contra imagem – Cinema de Resistência’. Na mostra contempoânea, selecionaram 21 títulos, entre eles Comboio de Sal e Açúcar, de Licínio Zevedo, que vi no Rio, Hermia e Helena, de Matías Piñeiro, La Calle de la Amargura, de Arturo Ripstein, O Rio do Ouro e Se eu Fosse Ladrão… Roubava, de Paulo Rocha, Viejo Calavera, de Kiko Russo, que também estava no Rio, A Última Terra, de Pablo Lamar, que passou no Festival Latino de São Paulo, e um punhado de filmes brasileiros que estão na Mostra – Redemoinho, de José Luiz Villamarim, passa na sexta-feira, Rifle, de Davi Pretto, que adoraria haver premiado (para valer) em Brasília, Beduíno, de Júlio Bressane, e o polêmico Antes o Tempo não Acabava, de Sérgio Andrade e Fábio Baldo, que será exibido nesta quarta, 26, em SP. A Mostra CineBH abriga uma sessão chamada Diálogos Históricos. Nem me lembro se foi no ano passado ou no anterior, mas trouxe Tag Gallagher, que fez sessões comentadas de grandes filmes de John Ford e Roberto Rossellini. Meninos, eu vi. Amei. Às vezes me arrependo de não cultivar certas amizades. Gallaghwer, por exemplo. Amamoas os mesmos Preminger – A Primeira Vitória. In Harm’s Way! Este ano, veio o crítico italiano Adriano Aprà, que, a exemplo de Gallagher, selecionou três filmes de autores essenciais – Gertrude, de Carl Theodor Dreyer, Crisântemos Tardios, de Kenji Mizoguchi, e O Eclipse, de Michelangelo Antonioni. Já que não podia estar presente, preso à Mostra daqui, pelo menos falei por telefone com Aprà, fundador da revista Cinema e Film, e autor de numerosos filmes. Ele me disse que escolheu esses filmes porque são seus preferidos de autores a quem reverencia. Lembrou que Antonioni, no começo dos anos 1960, se convertera num cineasta tão respeitado e, ao mesmo tempo, bem sucedido na bilheteria que pÔde fazer dentro do sistema, e com astros e estrelas, filmes que radicalizaram a questão da linguagem. Por exemplo, Monica Vitti e Alain Delon em L’ Eclisse. Para além do fato de Antonioni e Monica serem marido e mulher na época, ele destacou um aspecto muito interessante. No mundo de solidão e incomunicabilidade de sua trilogia formada por A Aventura, A Noite e O Eclipse, mas principalmente no último, Antonioni filmava sua atriz como se fosse apenas mais um objeto em cena. Há uma quebra disso em momentos pontuais – as cenas da Bolsa, quando Monica, indo atrás de Delon, o segue no pregão, e a da dança africana, na casa, que termina daquele jeito ridículo, quando a personagem percebe que perdeu o sentido do primitivo e aquela dança ritual, sobre a fertilidade, não significa nada para ela. Isso leva ao final, o eclipse do gênero humano, fecho de toda a trilogia, quando desaparecem as pessoas e ficam somente os objetos e as paisagens urbanas – em 1962! Imagino que teria sido maravilhoso assistir aos filmes e compartilhar os comentários de Adriano Aprà. Depois de BH, ele passaria alguns dias no Rio, que é onde deve estar agora. Disse-lhe que Marco Bellocchio estava em São Paulo, homenageado pela Mostra daqui. Aprà me disse que é amigo de Marco e acrescentou – ainda bem que escrevi isso antes no blog, senão estaria repetindo – que é o maior regista (diretor) italiano contemporâneo. Aprà acrescentou que há uma nova geração muito interessante, à margem da indústria, na Itália. ‘I filmi non si vedono’, Não se veem seus filmes. Deve ser a geração ‘Aurora’, da Mostra de Tiradentes, deles. Deu-me o endereço de seu blog, que compartilho com vocês. www.adrianoapra.it. Disse que tem um link para migliori filmi, melhores filmes, que está sempre atualizando. Espero que, no ano que vem, as Mostras não batam para que, depois de Gallagher e Aprà, eu possa conhecer – fica firme, Merten! – o convidado dos diálogos históricos de 2017.