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Luiz Carlos Merten

25 Fevereiro 2010 | 08h18

PARIS – E, afinal, não vi ontem nem ‘A Conquista do Oeste’ nem ‘A Single Man’. Havia redigido o post e o texto sobre a homenagem a Rohmer que vocês podem ler no ‘Caderno 2’ de hoje. Saí para almoçar e, no Pariscope, descobri que o Action Écoles, um cineminha de arte da Rue des Écoles, no Quartier Latin, estava mostrando ‘O Tesouro do Barba Ruiva’, último filme norte-americano de Fritz Lang. Em janeiro, já tentara vê-lo, mas os horários não batiam. Agora, larguei tudo e fui. Nunca é demais lembrar a abertura de Peter Bogdanovich para seu livro de entrevistas, ‘Fritz Lang in America’. Embora os filmes norte-americanos de Lang somem mais da metade da sua obra, sempre foram desprezados em comparação com as obras da primeira fase – expressioinista – alemã. Bogdanovich não diz o que afirmo agora. Com exceção de ‘M, o Vampiro de Dusseldorf’ e, talvez, ‘Metropolis’, a primeira fase alemã de Lang é que não vale a passagem do mestre por Hollywood, onde ele encontrou, no cinema de gêneros, a melhor maneira de se expressar. Hoje, a crítica já descobriu – e respeita – a fase hollywoodiana de Lang, na qual ‘Moonfleet’, Les Contrabandiers du Moonfleet em francês, cintila como jóia rara. O filme é uma aventura no estilo de Robert Louis Stevenson, uma caça ao tesouro, mas sem o mar de ‘A Ilha do Tesouro’, ou melhor, desenrolada em boa parte sobre essa falésia, um penhasco, que se debruça sobre o abismo marítimo. Um garoto procura, a pedido da mãe, um amigo, que pode ser seu pai. Esse garoto guarda o acesso a um tesouro e os caminhos do filme são tortuosos até que Stewart Granger assuma, malgré lui, seu papel de herói. Lang, como John Huston em relação a ‘O Passado não Perdoa’, não tinha muito apreço por ‘Moonfleet’ e não foi difícil descobrir por quê. O filme termina com Stewart Granger ferido que parte num barco – moribundo? – para alto mar, mas o estúdio, a Metro, exigiu um final mais edificante, do menino na casa de onde Granger, o contrabandista, fora expulso, anos atrás. Obra crepuscular, testamentária, ‘Moonfleet’ é tanto mais impressionante porque foi quase que inteiramente feito em estúdio. O filme reinventa ‘Metropolis’ e antecipa ‘O Tigre da Índia’. Há, no cinema de Lang, um mundo subterrâneo – aqui, uma caverna -, que é o verdadeiro, onde as pessoas (Granger, o garoto) se revelam como são, enquanto na superfície reina a hipocrisia social (os personagens de George Sanders e sua mulher). Adoraria que esse filme saísse em DVD, ou passasse na TV paga ou no cinema, aí no Brasil. Não adianta nada eu ficar escrevendo aqui, se vocês não puderem compartilhar comigo o prazer de (re)ver ‘Moonfleet’. Existe uma maneira, claro, mas não serei eu a aconselhá-los, formalmente, a procurar (e baixar) o filme na internet. Mas, enfim, se não existe outra solução…