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Cultura » E a roupa suja, onde se lava?

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Luiz Carlos Merten

22 Outubro 2007 | 14h33

Danou-se, ou danei-me. Queria falar sobre ‘S.O.S Saúde’, de Michael Moore, e o filme está tendo agora sua última exibição na 31ª Mostra, no IG Cine. Espero que vocês já tenham visto. Michael Moore é o documentarista que os próprios documentaristas amam odiar. Cara-de-pau, ele não tem nenhum respeito por seus entrevistados – o que fez com Charlton Heston em ‘Tiros em Columbine’, mesmo que o cara tenha se desmoralizado a si mesmo, é de uma crueldade acintosa – [TEXTO]e sai pelo mundo disposto a provar seus pontos de vista, em geral criticando o presidente George W. Bush. Pessoalmente, achei ‘S.O.S. Saúde’ (Sicko) seu melhor documentário, como cinema. Mas é o tipo do filme que deve provocar irritação. MM, que não dá para chamar de comunista, pega os bombeiros que foram heróis no 11 de Setembro, abandonados pelo governo americano – o sistema de saúde não cobre as doenças que eles contraíram, aspirando pó e fumaça –, e vai com eles a Cuba (a Cuba!) para mostrar a superioridade da saúde na ilha de Fidel Castro. Sensacional! Os bombeiros viram sacoleiros, comprando, a troco de banana, várias caixas do medicamento que não têm dinheiro para comprar nos EUA – seria hilário, se não fosse trágico. É claro que MM continua de caráter duvidoso – ele manda um cheque a seu oponente e reflete se devia colocar aquilo no filme. Coloca, segundo diz, porque ajuda a provar seu ponto de vista sobre a grande enfermidade, que é o próprio sistema de saúde dos EUA. Afinal, ele vai à França e à Inglaterra e nestes países ‘capitalistas’, como na anacrônica Cuba socialista, as coisas são diferentes. Na Inglaterra, nem a própria Dama de Ferro, ao terceirizar tudo – tudo! –, teve coragem de mexer no assistencialista sistema de saúde, no qual o paciente, qualquer paciente, além de ser medicado de graça, ainda recebe o dinheiro da condução para ir para casa. O melhor é o final. Se você pensa que político brasileirio não presta e seus congêneres americanos são santos, talvez se surpreenda ao ver MM carregando um cesto de roupa suja para lavar no Congresso dos EUA. Isso não nos absolve, ou não absolve os políticos brasileiros, mas talvez ajude as pessoas a pensarem que, talvez – talvez –, a corrupção, mesmo com seu histórico no Brasil, pode ser intrínseca a esse tal mundo globalizado (e o pipocar de casos em todas as latitudes está aí para demonstrá-lo).