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Cultura » E a Paloma ficou triste

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Luiz Carlos Merten

07 Novembro 2006 | 15h14

Comecei a ver filmes nos anos 50, em Porto Alegre. Eram outros tempos, outro mercado e eu via a produção de Hollywood no velho cine Rival (que o tempo levou). Westerns, filmes de aventuras, de guerra eram lançados conjuntamente com filmes mexicanos, comédias italianas, inglesas (com Norman Wisdom!) e os filmes ‘naturalistas’ (de sexo) franceses e suecos. É impressionante mas naquele tempo via-se de tudo, pois Hollywood ainda não havia se consolidado como cinematografia hegemônica. Quer dizer – até já era, mas havia espaço para a diversidade no mercado. Via as comédias do Dino Risi e do Luigi Comencini, os faroestes do John Ford e do Anthony Mann, os melodramas do Douglas Sirk (Imitação da Vida). Descobri simultaneamente Oscarito, Grande Otelo e Cantinflas. Via aqueles filmes mexicanos que a Pel-Mex lançava. Maria Felix, Libertad Lamarque, Maria Antonieta Pons e, claro, os atores-cantores mexicanos. Miguel Aceves Mejía, Miguel Aceves Mejía, Miguel Aceves Mejía. Acabo de enterrar o Mejía numa nota que sai amanhã no Estado. O público jovem nem deve saber de quem se trata, mas Caetano Veloso sabe. Miguel Aceves Mejía estrelou mais de 50 filmes, sempre vestindo o charro. Sua marca era o falsete, celebrado em Cucurrucucu. O filme não tinha Paloma no título. Eram outros tempos, não digo que melhores, mas me dão outro tipo de vivência quando vejo um filme como El Violín ou entrevisto um ator como Don Angel Tavira, do filme de Fernando Vargas Quevedo. Fui dizer para o meu editor quem era Miguel Aceves Mejía e ele retrucou, meio que na brincadeira, a Paloma (do cucurrucu) ficou triste. Resolvi usar como título. Com o Mejía é mais um capítulo que se encerra da história do cinema mexicano popular dos anos 40 e 50. Foram-se Cantinflas, Maria Félix, Maria Antonieta Pons. A quem importa isso? Aos espectadores que viram Mi Niño, Mi Caballo e Yo. Fui procurar a data – 1958, direção de Miguel M. Delgado, o homem que assinava as comédias de Cantinflas, na empresa que ambos criaram, a Posa Filmes.