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E a Mostra Mundo Árabe tem pérolas como Yamo

Luiz Carlos Merten

13 Agosto 2017 | 09h52

Tenho de admitir que complico minha vida e a vida dos outros. Por exemplo, o Festival de Cinema Judaico – passou e eu perdi completamente. Agora mesmo está rolando a Mostra Mundo Árabe, e a assessoria foi mais eficiente, no sentido de me mandar e-mails, telefonar, acionar amigos, enviar sinais de fumaça – tudo até me localizar e falar comigo, o que conseguiu. Fui ontem tomar um café, pela manhã, com o diretor libanês Rami Nihawi, de Yamo. Conversamos e ele me deu conta da enormidade do sentido pessoal de seu documentário. Mãe e filho. Mãe libanesa, pai sírio. Duas nacionalidades e um país, o Líbano, dividido pela guerra. Questões como identidade, o não pertencimento. Pai e mãe sofreram muito. As consequências de uma economia destroçada, e não apenas. Interiorizavam sua dor. Agora, o filho cobra – ‘Fala, mãe!’ E ela, na dignidade de sua beleza – ‘O que você quer ouvir?’ Yamo ainda terá uma sessão na noite deste domingo, no Cinesesc, às 19 h. Há uma beleza triste em Yamo. Tanto sofrimento e o país é tão lindo. Meu amigo Dib Carneiro – uma contradição em termos, ‘dib’ quer dizer lobo – tem ascendência libanesa, chegou a publicar um livro com as receitas de sua avó. Cada receita, uma história de família, desse Líbano distante e mítico. Acho que o Dib gostaria de ver Yamo. Acho que vocês gostarão. Rami também é ator, embora não se considere como tal. Como diz, se o diretor lhe propõe um papel e em geral é um amigo, é porque já viu nele o personagem. Só ao encontrá-lo dei-me conta de que Rami é ator de um filme que vi em Paris, Still Burning, também com Wajdi Mouawad. E chegou o Geraldo Adriano Campos, curador da Mostra Mundo Árabe, que vai até a quarta, 16. Geraldo contou que já houve um debate e Rami estava muito emocionado, porque foi a primeira vez que reviu o filme depois da morte da mãe. O tema desse ano é ‘territórios que nos atravessam’. Tem tudo a ver com o filme de Rami. Publico um trecho do próprio Geraldo no release da mostra – “Os filmes tratam do deslocamento de pessoas, assim como da reconstrução de um sentido de lugar, das dúvidas que assolam aqueles que decidem, ou são forçados, a sair. Qual o momento decisivo para aqueles que deixam suas casas? Como esta decisão é tomada? Qual a perspectiva temporal, qual a ideia de futuro para aqueles que são proibidos de retornarem às suas casas? Imagem e som são formas de permanência, de perpetuação de narrativas daqueles que migram ou que estão sujeitos ao exílio e o refúgio. Nesse sentido, a mostra traz também filmes que são registros de momentos históricos importantes, particularmente para aqueles, como os palestinos, cujos arquivos têm sido objeto de um duplo apagamento, material e simbólico.” A Mostra Mundo Árabe exibe hoje, na sequência de Yamo, Para Onde Ir? de Georges Nasser, de 1957, primeiro filme sobre a imigração libanesa no Brasil, e o diretor está completando 90 anos. 90! Na segunda, 14, tem Off Frame/Fora de Quadro, de Mohanad Yaqubi – Rami Nihawi é o produtor -, que passou em Berlim, sobre o surgimento do cinema militante no Oriente Médio. Só lamento ter perdido ontem à noite, na Sala São Paulo, porque já tinha compromisso, o espetáculo Al-Mu’tamid, sobre o rei poeta do Al-Andalus. Inédito no Brasil, atravessa as histórias de Portugal, Espanha e do mundo árabe, numa viagem por dez séculos de música e interculturalidade. Quando Geraldo me descreveu o espetáculo, confesso que fiz minha viagem e comecei a ver/ouvir os cantos de Santa Maria de Iquique.’Por más que el tiempo pase, no hay nunca que olvidar.’