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Cultura » E a Loren, hein?

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Luiz Carlos Merten

27 Dezembro 2009 | 19h13

Terminei meu post sobre ‘A Queda do Império Romano’ dizendo que Sophia Loren é deslumbrante como Lucila no ‘terra em transe’ de Anthony Mann. Antes de começar a redigir essa série de posts, estava zapeando na TV paga. Passei pelo Telecine Cult, que reprisava ‘Os Girassóis da Rússia’, de Vittorio De Sica, com a dupla Mastroianni/Loren. Peguei o filme já no finalzinho, mas não deu para desgrudar o olho. Marcello volta à Itália à procura de Giovanna (Sophia). Reencontram-se e é diferente, embora pareça igual ao desfecho de ‘Clamor do Sexo’, meu Kazan favorito. Nós que nos amávamos tanto… Mastroianni tenta convencer Sophia de que devem fugir juntos. Ela diz que não. Tem um filho, um marido bom. Ele deixou a mulher e a filha na Rússia. Sophia o leva à estação, para que ele pegue o trem. Despedem-se silenciosamente e, à medida que o trem deixa a estação, sobe o tema de Henry Mancini e ela chora seu grande amor. A (sublime) renúncia é um tema clássico do melodrama. ‘Girassóis da Rússia’ é um dos filmes que os críticos gostam de citar para desqualificar o outrora neo-realista De Sica. Sua fase final foi marcada por concessões e, como escreve Jean Tulard em seu verbete do ‘Dicionário de Cinema’, é todo o conjunto da obra que passa, de repente, a ser contestado. Pieguice, miserabilismo, exploração abusiva das crianças – uma acusação parecida costuma ser feita a Fernando Meirelles (e a Fátima Toledo), por ‘Cidade de Deus’. De minha parte, creio que seria excessivo desmontar De Sica da história do cinema. Admiro-o demais como diretor de ‘Ladrões de Bicicletas’ e ‘Umberto D’, e como ator de Rossellini em ‘De Crápula a Herói’. O bom de ficar revendo ‘Girassóis da Rússia’ é que tudo de ruim sobre o filme já foi dito. Até o que vou elogiar agora já foi devidamente execrado. Em ‘Duas Mulheres’, De Sica negou uma das pedras de toque do neo-realismo (o trabalho com atores não profissionais) e fez da história de Cezira um show de estrelismo (Sophia ganhou o Oscar pelo papel). O estrelismo é agora a razão de ser de ‘Girassóis’. Sophia e Marcello são o filme. Vou me repetir, dizendo, como no fim do post anterior, que Sophia é, mais uma vez, deslumbrante. Quando eu disse que não conseguia desgrudar o olho – não conseguia desgrudar dela.