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E a compaixão, onde fica?

Luiz Carlos Merten

09 Março 2009 | 15h45

Uma vista d’olhos na capa de hoje do ‘Globo’, largado numa mesa perto da minha – Ronaldo, o iluminado, comemora seu gol de cabeça que salvou o Corinthians –, me abre a possibilidade de falar sobre um assunto que tenho entalado. Todo mundo já deve ter comentado, mas ainda estou em choque com a fala do arcebispo de Recife e Olinda, que, para condenar o aborto, cometeu uma violência inominável. Disse que o estupro não é um crime ‘tão’ grave e, portanto, condenou e excomungou os médicos que fizeram o aborto na menina de 9 anos estuprada pela padrasto. A chamada de capa do ‘Globo’ refere-se justamente à violência contra meninas, com base em dados do Hopital Pérola Byinton, aqui de São Paulo, considerado referência no atendimento a mulheres vítimas de violência. Descobri depois, conversando com o Bira, meu colega Ubiratan Brasil, que o ‘estado’ já tinha publicado essa mesma matéria no sábado. Confesso que o assunto me atrai pela complexidade. A posição da Igreja é radical contra o aborto. O direito à vida é inalienável e a Igreja reconhece o feto como ser vivo. Respeitável, sem dúvida, mas vamos ao passado. Enquanto instituição, a Igreja, ao longo dos séculos, para se consolidar, cometeu todo tipo de violência – e as mulheres foram sempre vítimas preferenciais. Duvido que se possa fazer uma estatística confiável das mulheres torturadas e mortas na fogueira pela Inquisição. E os índios? Enquanto a Igreja discutia se tinham alma, coisas horríveis eram praticadas contra eles. Ou seja, historicamente a Igreja tem sido uma instituição secular como qualquer outra. Tudo pelo poder. Isso para não falarmos naqueles papas Bórgias que devem estar ardendo no inferno por seus crimes. Claro que não tem nada a ver, mas é curioso que esse horror – para condenar o aborto, a Igreja mininmiza o estupro e condena a menina recifense a um segundo estupro, dando à luz – ocorra justamente quando Bento XVI fica sob fogo cruzado por levantar a excomunhão dos partidários de Lefebvre que proclamam que o Holocausto não existiu e que 6 milhões de judeus ‘não’ foram mortos pelos nazistas durante a 2ª Guerra. Sei que uma coisa não tem nada a ver com outra, mas a verdade é que, num mundo em que a gente tem cada vez mais dificuldade para se escandalizar – com o quê, face a todos os desatinos que se cometem todo dia? –, essas coisas me deixam perplexo. Até compreenderia, não estou falando em aceitar, o dilema moral do prelado, mas manifestado com compaixão. Desse jeito, é barbárie, medievalismo puro. O estupro não é tão grave? Ah, é? Quem sabe pode ser até agradável, então? Monsenhor está disposto a ficar numa cadeia com criminosos bem medonhos, sedentos de sexo? E qual é o próximo passo? Abrir as igrejas à noite para estupros seguros? Pelamor de Deus…