Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » E a Calunga foi para… Laís Bodanzky!

Cultura

Luiz Carlos Merten

03 Maio 2010 | 00h59

RECIFE – Cheguei há pouco da Sala São Luiz, no Centro da capital pernambucana, onde se realizou a cerimônia de encerramento do 14º Cine PE. Passei pelo restaurante do hotel, comi alguma coisinha e quero ver se durmo pelo menos uma hora, porque preciso levantar às 3. Meu voo para São Paulo é às 5 e pouco (5h15, acho). Mas não resisto a acrescentar este post sobre o resultado do Festival do Recife. Pode-se discutir um ou outro prêmio, como o absurdo de dividir a Calunga de roteiro entre o documentário ‘Sequestro’ e a ficção ‘As Melhores Coisas do Mundo’, mas, no geral, o júri fez a coisa certa e o longa de Laís Bodanzky emplacou oito prêmios, incluindo melhor filme, diretor(a), roteiro e ator, para Francisco Miguez. Laís ganhou até o prêmio da crítica, o que deve escandalizar meu colega Inácio Araújo. Não li o texto dele, mas os coleguinhas todos me fizeram saber que Inácio detonou ‘As Melhores Coisas’, que definiu como ‘conservador’ ou ‘reacionário’, sei lá. Vou pegar carona em Emmanuelle Riva, de ‘Hiroshima, Meu Amor’, um clássico (de Alain Resnais) do qual Inácio deve gostar tanto quanto eu. Emmanuelle/Nevers define-se, lá pelas tantas, como uma mulher de moral duvidosa e explica – ‘Je doute de la moralité des autres’, ou seja, ela duvida da moral dos outros. Sou um homem de moral para lá de duvidosa. Duvido da moral de quem não gosta de ‘As Melhores Coisas’. Teria de pesquisar, para ser exato, mas Laís também ganhou oito ou mais Calungas com ‘Bicho de Sete Cabeças’, que permanece como meu filme mais querido da Retomada. Fui citado pela diretora no palco, quando ela agradeceu o prêmio da crítica. Laís lembrou que, na época do ‘Bicho’, emocionada com o texto que escrevera sobre o filme, Luiz Bolognesi e ela me enviaram um cartão, citando Arnaldo Antunes – ‘O seu olhar melhora o meu.” Aquilo também me emocionou e eu guardo o cartão até hoje. Virou uma espécie de bandeira – tento sempre melhorar o olhar dos diretores, e não apenas os que admiro. Seria presunção minha dizer que o júri seguiu minhas coordenadas, mas além dos prêmios para ‘As Melhores Coisas’ – escrevi no ‘Caderno 2’ e acho que aqui também que era uma competição de um só filme -, tive a satisfação de ver Paloma Duarte receber a Calunga de melhor atriz (por ‘Léo e Bia’) e até o filme de Geraldo Moraes, que achei decente, foi bem lembrado, com três prêmios (incluindo o do público) para ‘Homem Mau Dorme Bem’. O festival poderia ter sido melhor? Com certeza, mas dentro das possibilidades, foi legal, teve aquele público caloroso e consagrou um filme do qual gosto. E vocês, já viram ‘As Melhores Coisas do Mundo’? Na pesquisa feita pela distribuidora Warner, ele teve mais de 70% de ótimo e bom. Espero que o boca a boca esteja funcionando e que o público vá ver o filme. Espero que a enxurrada de Calungas contribua para isso. Quanto ao discurso chavão dos falsos artistas contestadores, os que filmam (montam peças etc) para ‘provocar’, deveriam ler as cartas de Van Gogh para seu irmão Theo. Van Gogh queria pintar para consolar. A bela história de amor entre irmãos de ‘As Melhores Coisas’, a saída do armário do pai gay e seu companheiro que antecipa – e evita – a tragédia, tudo aquilo foi um grande consolo. Interessante, mas o próprio Jorge Durán, falando sobre seu filme do qual não gosto, disse que ‘Não Se Vive Sem Amor’ conta a história de um garoto que, procurando o pai, vira ele próprio pai da família que escolheu. Honestamente, quem é o pai da própria família é o outro garoto, o Mano de ‘As Melhores Coisas’, e o filme é melhor.