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Luiz Carlos Merten

24 Outubro 2011 | 23h58

Não faz muito tempo – no ano passado? – que assisti em Paris a ‘A Harpa da Birmânia’. O clássico de Kon Ichikawa foi relançado nos cinemas, em cópia nova. No Brasil, o filme está sendo resgatado em DVD pelas Cult Classics. Tudo o quer poderia dizer sobre ‘A Harpa’ vocês encontrarão numa pesquisa no blog. Ichikawa foi sempre um  personagem polêmico do cinema japonês. Fez filmes demais, comédias à maneira de Frank Capra, que os críticos recebiam a pedradas. É dele o documentário sobre as Olimpíadas de Tóquio, em 1964. Quatro anos antes, o taliano Romollo Marcellini fizera seu belo documentário sobre as Olimpíadas de Roma. Era mesmo belo, ou é a lembrança que lhe dá um colorido especial? O documentário de Ichikawa é um show de técnica – teleobjetiva, zoom. Mas, até onde me lembro, o que o diretor menos mostra são os atletas (e as disputas). Lembro-me das provas de arco. Ichikawa filma planos de detalhes, desfoca a imagem, tenta captar a tensão do jogador, o suor na fronte. Da prova mesmo, não mostra nada. Conheci-o pessoalmente em, Veneza, no começo dos anos 1990, quando ele foi apresentar sua versão de ‘Ronin’. O autor foi recebnido com deferência, o filme passou em brancas nuvens. Ichikawa deve sua fama a três filmes feitos quase em sequência, na segunda metade dos anos 1950. Dois abordam a guerra segundo persperctivas – estéticas e filosóficas – diferentes. ‘A Harpa’ vê a guerra do ângulo do militar que tenta convencer seus comandados de que a guerra acabou (um coração sujo?) e que conta, para isso, com a cumplicidade do harpista da tropa. ‘Fogo na Planície’ vai na contramão e traz o horror da guerra, mostrando soldados famintos que não recuam diante do canibalismo. Ichikawa radicaliza a crítica de Masaki Kobayashi na sua monumenmtal trilogia ‘Guerra e Humanidade’ por meio de imagens e situações de choque. E aí veio ‘Kagi’, Estranha Obsessão, sobre aquele velho que usa o ciúme da mulher como instrumento para reativar a própria libido. ‘A Harpa da Birmânia’ é certamente importante por seu pacifismo, mas existem outros dois lançamentos em DVD – da Versátil – que são prioritários para mim. ‘Mulheres Apaixonadas’, de Ken Russell, e ‘Mensageiro do Diabo’, único filme realizado pelo ator Charles Laughton. Vou deixar vocês só com a excitação dos títulos. É tarde, quero ler meu Salgari. Russell e Laughton ficam para amanhã.