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Luiz Carlos Merten

16 Outubro 2007 | 13h11

Falei hoje de manhã em Eric Rohmer, cujo novo filme, ‘L’Amour d’Astrée’, Cahiers du Cinéma e Positif, sempre tão divergentes em seus pontos de vista, estão amando com igual intensidade. O filme é capa das duas revistas, em setembro. Cheguei ontem em casa e encontrei um pacote de DVDs da Europa. Lá estava, na Coleção Rohmer, o disco de ‘A Carreira de Suzanne’, um típico filme do autor – rapaz preocupa-se com o tratamento que o amigo dá à sua namorada, até porque acredita que, no fundo, ela gosta é dele. Mas o herói também gosta de outra garota e não sabe se é correspondido. Existe outro tema além do amor, para Rohmer? Sim, e no plural – a linguagem, a filosofia, a música. É disso que seus filmes, em geral, tratam, quase sempre partindo de tramas muito tênues, porque Rohmer, como o japonês Yasujiro Ozu, detesta as histórias muito elaboradas e complicadas. Falando de amor, ele não é como Truffaut, que via o sentimento como oposição entre o gesto impulsivo e a palavra consciente e, por isso, nos filmes dele, o amor é sempre tão convulsivo. Gosto mais de alguns filmes do Truffaut, mas, no geral, tenho um encanto maior pelos do Rohmer, mesmo que seja um autor para se consumir em pequenas doses. Dez filmes do Rohmer, um atrás do outro, me pareceriam excessivos. Além do regalo que é este Rohmer, o pacote da Europa traz títulos da coleção que homenageia os 65 anos da Atlântida, incluindo um dos clássicos do estúdio carioca – ‘Matar ou Correr’, de Carlos Manga, com Oscarito e Grande Otelo, que não é outra coisa senão a paródia do supervalorizado western de Fred Zinnemann, ‘Matar ou Morrer’. Entre outros filmes, encontrei também ‘Mineirinho, Vivo ou Morto’, de Aurélio Teixeira, que Jece Valadão, quando conversei com ele, no Rio, na coletiva de lançamento de ‘Carnaval’, a minissérie de Cao Hamburger na HBO, me confessou que era um de seus filmes favoritos, e talvez o favorito. As pessoas viviam falando de ‘Cafajestes’, de ‘Boca de Ouro’ e o Jece adorava ‘Mineirinho’. A história mostra como a imprensa transforma um cara do morro, que matou em legítima defesa, no inimigo público número 1. Jece não viveu para ver ‘Tropa de Elite’. Não sei, mas acho que o filme do Padilha tende a tornar todos esses títulos mais antigos meio obsoletos. Eles são muito românticos, face a uma realidade que ficou barra-pesada demais. Antigamente, na época da ditadura, Chico Buarque pedia socorro ao ladrão, na hora do aperto. Hoje em dia, todo mundo chama o Capitão Nascimento. De qualquer maneira, me deu vontade de (re)ver ‘Mineirinho’, que tem a Leila Diniz no elenco.