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Luiz Carlos Merten

30 Novembro 2011 | 17h23

Fui assistir ontem à sessão para convidados de ‘Quebradeiras’, o novo documentário de meu ex-chefe no ‘Caderno 2’, Evaldo Mocarzel. A gente brinca com o Evaldo que ele filma demais e ainda tem 365 projetos engatilhados, um para cada dia do ano. ‘Quebradeiras’ foi feito graças a um edital do DocTV. É etnográfico, 100%, plástico e assinala algumas novidades no cinema do Evaldo. Nenhuma entrevista, câmera parada, trilha com compositores contratados etc. As quebradeiras são mulheres que vivem do que lhes fornece os cocos de babaçu e que elas passam o dia quebrando. Vida miserável – apesar disso, cantam e tecem um imaginário que os coqueiros são representações do feminino e o próprio coco possui a formação do serio. Interessante, mas nem tanto. Gostei médio, mais por respeito pelo esforço, mas o que queroi dizer é que cheguei cedo, a sessão só seria masis de uma hora depois – e ainda atrasou – e eu aproveitei para dar uma olhada nos DVDs, naquela loja ao lado do anexo do Espaço Unibanco, na Rua Augusta. Fiquei de queixo caído com a quantidade de lançamentos de ‘clássicos’ da Cult. Todo mundo sempre me comenta que são pirateados, mas está tudo lá, muito legalizado na loja, com direito a nota fiscal e tudo. ‘Trocentos’ filmes japoneses, russos, poloneses, além de westerns, ‘Godards’ (um gênero à parte) e por aí afora. E existem os demais lançamentos. Temos agora duas ‘Cadelas’ nas locadoras. A de Jean Renoir, no filme famoso dos anos 1930, e a de Marco Ferrerio nos 70. Confesso que Ferreri não é minha praia, mas ‘La Chienne’ não deixa de oferecer curiosidades (no plural). Para início de conversa, o filme tem mais títulos do que qualquer outro de que me lembre. ‘Liza’, ‘Melampo’, ’La Cagna’, ‘La Chienne’ – este eu juro que só vi na capa do DVD da Lume (é Lume, não?). Lisa é Catherine Deneuve, Melampo é o cachorro de Marcello Mastroianni, que Lisa mata para ocupar seu lugar, com direito a coleira. Como a realidade às vezes imita a ficção, Luma de Oliveira vestiu coleira como sinal de submissão ao marido rico, mas vocês devem se lembrar que aquilo não durou. Bem, o cara tem dinheiro (muito), mas também não é o Mastroianni. Mesmo sem gostar exageradamente do filme de Ferreri, não posso deixar de pensar que uma provocação dessas não seria possível no cinema de hoje em dia, tão marcado pela correção política. Só que não é por ser incorreto que ele me seduz. Gosto de pouca coisa do diretor, algum filme do começo da carreira, da fase com Annie Girardot, a ternura (inusitada por parte dele) de ‘La Casa del Sorriso’ e, claro, a dupla Gazzara/Muti de ‘Crônica de Um Amor Louco’. Fuçando lá nos DVDs da loja, encontrei outro que tem dado o que falar com os coleguinhas, ‘Billy Budd’, de Peter Ustinov, o Nero de ‘Quo Vadis?’, papel pelo qual ganhou o Oscar de coadjuvante, e o Hércules Poirot de ‘Viagem no Nilo’. Aliás, não resisto a espicaçar. Estava no avião outro dia, indo para o Uruguai, e li o que me caiu à mão, o guia de livros e DVDs da concorrência. Nem me lembro quem caiu matando em ‘As Esganadas’, valendo-se da ferramenta de Jean-Paul Sartre, que dizia que, em seus anos de formação, pulava as partes descritivas dos livros de Jules Verne, porque não tinha paciência. Bem, espero que Sartre, já crescidinho, não tenha pulado as partes descritivas de Melville, Emile Zola e Honoré de Balzac (e elas são imensas). É verdade que não existe muita descrição em ‘Billy Budd’, a novela (não é um romance) mais rarefeita do autor, com sua alegoria do conflito entre bem e mal por meio da história do marujo ingênuo (idealista?) que mata seu superior sádico e é levado a corte marcial. ‘Billy Budd’ é aquilo que os norte-americanos chamam de ‘morality play’ e até onde me lembro, com exceção da cara de anjo de Terence Stamp, em sua estreia no cinema, e da fotografia em preto e branco de Robert Krasker, o filme não me impressionou muito, mas no começo dos anos 1960 eu ainda era de ‘menor’ e meus hormônios não estavam exatamente interessados no tipo de discussão que o livro e o filme proporcionavam (mas eu já havia lido e gostado e visto e também gostado de ‘Moby Dick’, livro e filme – de John Huston). Lembro-me que a palavra usada pela crítica da época para definir ‘Billy Budd’ era ‘frustrado’. Pode ser que, revendo o filme, eu venha a me surpreender, mas não conto muito com isso. Revi, não faz muito tempo, na TV dos EUA, ‘Romanoff e Julieta’ e o Shakespeare de Peter Ustinov era bem aguado para eu pôr fé no seu Melville, tão mais complexo. Para não parecer desinteressado, quero dizer que aproveitei e comprei, mas ainda não (re)vi, o DVD de ‘Duelo na Cidade Fantasma’, um John Sturges dos bons, com Richard Widmark e Robert Taylor.