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Luiz Carlos Merten

03 Janeiro 2007 | 14h19

É sempre motivo de espanto, para mim. No Caderno 2, privilegiamos sempre os lançamentos de DVDs de pequenas empresas como a Versátil ou a Aurora, que têm o perfil de trabalhar com o chamado ‘filme de arte’. Nem é tanto por causa da coisa seletiva, mas porque é importante que essas empresas coloquem no mercado um tipo de produto alternativo que, em caso contrário, jamais seria resgatado, pois são filmes raros. Ultimanente, a Aurora lançou Muriel, um filme de Resnais inédito nos cinemas brasileiros, e a Versátil resgatou Querelle, do Fassbinder, que está melhor do que no começo dos anos 80. Digo isso porque há um extraordinário aquecimento do mercado de DVD, mas, em geral, as majors que dominam o mercado de cinema também dominam o de DVD lançando exatamente o mesmo tipo de produto. Jornalisticamente, não posso fugir a essa realidade e até fiz uma entrevista, outro dia, com Andrew Davis, para quando sair o DVD de Anjos do Mar. Como jornalista, tenho de estar atento às tendências do mercado, mas não posso nem quero ficar atrelado somente a elas. Há que apontar caminhos, ir contra a corrente. Hoje em dia, cada vez mais, o cinema é só uma vitrine. Passa a janela dos três/quatro meses, o filme sai em DVD e este é, hoje, o mercado milionário, malgrado a concorrência da pirataria. O que eu acho sempre impressionante é a lista de filmes mais retirados. Acabo de receber, da Agência Estado, a relativa à última semana de 2006. Não tem nada daqueles filmes que Antônio Gonçalves Filho, Luiz Zanin Oricchio e eu temos tentado promover no Caderno 2 ou no suplemento de Cultura do Estado. O campeão desta semana é um filme do qual gosto bastante, Miami Vice, do Michael Mann, e o segundo é Piratas do Caribe 2 – O Baú da Morte, do qual não gosto tanto, um pouco porque é intermediário, sem começo nem fim, mas principalmente porque eu acho que o que havia de interessante no primeiro agora é calculado e exagerado. A lista prossegue com Velozes e Furiosos – Desafio em Tóquio e com outro filme que outro dia um leitor apontou como um dos melhores do ano, mas que eu vou ter de confessar – não vi. Até hoje, não sei porque não vi A Casa do Lago, do Alejandro Agresti, com Keanu Reeves e Sandra Bullock. Não foi nenhum tipo de preconceito. Gosto de todos, mas o filme deve ter estreado quando estava fora, a trabalho e eu aí eu fui deixando, deixando, fui vendo (e revendo) outras coisas. Perdi. Vou ver se recupero agora em DVD. Mas a questão é outra. Por que os filmes retirados nas locadoras são os mesmos que fizeram sucesso nos cinemas? Por que a repetição exata? Propaganda, economia, segurança, qual é o motivo? DVD e cinema de arte não combinam? Em casa, as pessoas só querem filmes para consumir com pipoca e refrigerante, podendo se distrair e conversar sem perder o fio da meada? Não creio que seja verdade, porque a Aurora e a Versátil têm um público pequeno, mas entusiasta e fiel, e internacionalmente existe o caso da Cryterion, empresa americano que é o Éden dos consumidores seletivos, tendo estabelecido um verdadeiro nicho no mercado. Mas há, é forçoso reconhecer, um abismo entre o blockbuster e o filme de arte, no cinema como no DVD. Adoro Miami Vice, acho Michael Mann o máximo e até coloquei o filme entre os melhores do ano. Mas confesso que me desaponta sermos tão poucos – gostaria muito que Muriel também fosse um dos mais retirados. É um sonho de cinéfilo, difícil (impossível?) de realizar, mas, em sonho, quem sabe?

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