Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Dúvidas

Cultura

Luiz Carlos Merten

15 Outubro 2006 | 12h25

Entrevistei várias vezes Bruno Barreto, tive sempre um bom diálogo com ele, talvez porque o Bruno me contou, em off, coisas que renderiam títulos bombásticos, mas nunca contei para não quebrar sua confiança. Se fosse alguma denúncia de dossiê, essas coisas que estão na moda, o jornalista, muito provavelmente, teria falado mais alto que o simples interlocutor, mas não é o caso. Pois bem, Bruno até comentou comigo a carreira de sua ex-mulher, Amy Irving, no teatro, mas nunca me falou do seu desejo de dirigir também no palco. Por isso, confesso que fiquei meio surpreso quando vi o nome dele como diretor de Dúvida, peça, definida como parábola, de John Patrick Shanley (o roteirista premiado com o Oscar de Feitiço da Lua) interpretada por Dan Stulbach, em cartaz no teatro do Shopping Frei Caneca. Dan é ótimo ator (achei-o super na primeira versão de Novas Diretrizes em Tempos de Paz, quando atuava com o Jairo Mattos) e dá força ao drama do padre acusado de assediar garoto negro numa escola que está praticando a integração racial nos EUA, no começo dos anos 60. A acusação vem da diretora da escola, uma freira rigorosa, interpretada por Regina Braga (atriz a quem admiro muito, mas que, de alguma forma, me pareceu estar interpretando Laura Cardoso; ela falava e era Laura quem eu via e até ouvia, coisa mais estranha). Na abertura de Dúvida, o padre faz um sermão e diz que a dúvida é o que nos une; e isso leva ao desfecho, uma hora e meia mais tarde. A idéia pode ser discutida e até contestada – não sei se a dúvida é mesmo o que nos une, da mesma forma que também acho polêmica a tese do Iñárritu , em Babel, de que a tragédia é o que nos une (mas vale lembrar que Nelson Rodrigues afirmava que o mineiro só é solidário no câncer) –; gostei, de qualquer maneira, de ver a peça. O texto e a montagem são muito lineares, o que me deu a sensação de que o Bruno não é do ramo (o que não é mesmo). Mas estava com um pessoal do jornal e comentei que havia gostado muito dos atores, da meticulosidade dos gestos, dos objetos em cena e alguém me disse que o Dan deu uma entrevista, que não li, elogiando justamente isso na direção do Bruno. É uma direção que, dependendo de sua adesão a Dúvida, você poderá chamar de invisível ou de ausente. Uma coisa é certa – não me pareceu falta de tempo assistir a Dúvida. A casa estava pela metade, o que é pouco numa noite de sábado, mas encontrei o Eduardo Elias, meu ex-colega no Estado, que saía do cinema, e ele me disse que também havia só metade do público na sala que exibia Do Luto à Luta, o documentário do Evaldo Mocarzel com a Joana, filha dele (e a Clarinha da novela Páginas da Vida). Down, assédio sexual. Nada disso é, digamos, muito divertido (embora você possa se divertir bastante no filme do Evaldo). O que representa a freqüência, nesses casos – desinteresse do público ou decorrência do feriadão, quando muita gente, com certeza, saiu da cidade?