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Luiz Carlos Merten

15 Janeiro 2007 | 16h45

Quem me conhece sabe que tenho um defeito físico – uma má formação da mão direita e ausência da esquerda. Não digo que isso nunca me criou limitações porque seria mentira, embora deva agradecer a meus pais, que nunca me trataram como ‘diferente’. Mas, enfim, digo isso, que poderia ser supérfluo, mesmo no blog – onde o que se discute são as minhas idéias, não a minha aparência -, porque é relevante para a história que quero contar. Em Londres, há um par de meses, entrevistei Dustin Hoffman, por Mais Estranho Que a Ficção. Era uma minicoletiva e o Dustin se revelou muito mais interessante do que eu achava que seria. Criticou Hollywood, Bush, a Guerra do Iraque. Disse que, muitas vezes, preocupados com o micro, perdemos a noção do macro e também que a inversa é verdadeira. Muitas vezes pensamos grande e deixamos de pensar nas pequenas coisas, nos efeitos que uma guerra pode ter, por exemplo. Dustin também teve um papo meio esotérico – ele acha que tudo está conectado no mundo e nada ocorre por acaso. Pois bem, todo esse papo do macro e do micro se devia a uma pergunta que formulei e ele o desenvolveu a partir de uma experiência pessoal. Estava filmando, em Londres, o trabalho anterior do diretor Marc Foster, Em Busca da Terra do Nunca – Foster também dirige Stranger than Fiction -, quando sofreu um acidente que lhe arrancou um tampão do dedo. Com o dedo decepado na mão, catado na grama do parque em que estava, ele foi para o hospital, onde o dedo foi devidamente costurado. Dustin contou que, no filme, aparece a maior parte do tempio escondendo a mão que sofreu a operação (e estava enfaixada). Não revi o filme para conferir. Confio na palavra dele. Mas, enfim, de dedo costurado e tudo, Dustin disse que perdeu alguma coisa. Não consegue mais jogar tênis, por exemplo. Uma coisa tão pequena, como o tampão de um dedo, teve esse efeito sobre ele. Terminada a entrevista, alguém deve ter ido contar para ele do meu defeito. Lá estou eu conversando quando chega o Dustin correndo e, esbaforido, me diz que era daquilo que falava. Tudo está conectado. Todas as coisas têm uma razão de ser. Estava escrito que nós íamos nos conhecer, nos aproximar. Depois disso, nos dois dias mais que fiquei no hotel, sempre que encontrava o Dustin ele se separava dos assessores e vinha conversar. Foi muito simpático da parte dele. E não era só para ser politicamente correto. Nunca mais falamos sobre isso, mas foram pequenos pedidos de informação em que ele parecia estar mais interessado em me entrevistar do que eu a ele. Não foi por causa disso, mas gostei do filme – e dele. Espero que vocês também tenham gostado de Mais Estranho Que a Ficção.

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