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Duras na queda

Luiz Carlos Merten

08 Abril 2013 | 19h24

Uma coisa não tem nada a ver com a outra, exceto que Margaret Thatcher e Sarita Montiel morreram no mesmo dia, uma com 87 anos e a outra com 84. Sara Montiel foi um ícone do entretenimento e uma ídola gay. Thatcher, a Dama de Ferro, foi igualmente icônica, e se há uma coisa que ela tinha era essa dimensão do Estado como espetáculo, que encarnou. Não quero ser desrespeitoso com Thatcher, mas já sendo – todo mundo vai dizer que ela foi a mais inovatriz das conservadoras. Thatcher, com Ronald Reagan e o papa João Paulo II, terminou redesenhando a geopolítica do mundo nos últimos 30 anos. O mundo pelo qual lutou foi, ou é, o das economias neoliberais. Thatcher venceu, mas o mundo que ela legou não ficou melhor, a menos que vocês achem que sim. Competitividade, pobreza, exclusão social, agressões ambientais. Não digo que tudo seja culpa dela, mas faz parte do seu legado. E o cinema inglês, todos aqueles autores que amamos – Stephen Frears, Ken Loach, Jim Sheridan – sempre a odiou/odiaram (digo, o que ela representava). Nem por isso deixei de me emocionar com a humanização de Thatcher por Meryl Streep, no filme que lhe deu o terceiro Oscar (e o segundo de atriz). Entrevistei Sara Montiel duas ou três vezes – ao vivo, por telefone. Ela sempre reclamou que Hollywood a tratava como mestiça e só lhe dava papeis exóticos, mas foram westerns como Renegando o Meu Sangue, de Sam Fuller, e  Vera Cruz, de Robert Aldrich. Ela se casou com o grande Anthony Mann, que a dirigiu em Serenata, um de seus filmes menos ilustres. Mas a união foi decisiva, para Mann e o cinema. Sarita apresentou-o à Espanha e Mann fez o que, para mim, é o mais belo épico do cinema – El Cid. Fico arrepiado só de pensar em Rodrigo Diaz de Vivar/Charlton Heston, amarrado a seu cavalo, comandando a última ofensiva contra os mouros. Abrem-se as portas do castelo e a câmera, num ângulo baixo (contraplongé), dá dimensão sobre-humana ao herói. Entra aquele órgão dilacerante na trilha de Miklos Rosza. Em 1958, Sarita tinha 29 anos quando deu por encerrada sua experiência hollywoodiana. De volta à Espanha, estrelou A Última Canção e, na sequência, La Violetera. Os filmes estouraram – na Espanha e no mundo. Por 17 anos, até 1975, Sarita encarnou um tipo de heroína romântica e sofredora. Radicalizando o conceito de melodrama – putting melos into drama -, ela nunca deixou de cantar (e de distribuir ramos de violetas para as plateias que nunca desistiram de lhe pedir que cantasse ‘Llevello ese ramito/que no vale más que un real’). A própria Sarita me explicou por que virou mito gay – ‘Porque soy muy hembra, muito fêmea. A los maricones les encanta lo que soy yo.’ Era inevitável que seu caminho cruzasse o de um certo Pedrito (Almodóvar), mas o filme, infelizmente, Má Educação, não foi um dos grandes dele. Que coincidência mais bizarra, Thatcher e Sarita irem-se juntas, no mesmo dia. Nada a ver. Nada? Na sua grande fase, como Carmem la de Ronda, Sarita aparecia em cena fumando cigarrilhas e, depois, charutos. Dura na queda. À sua maneira, foi de ferro. Chegou a dizer-me isso. ‘Quem acha, por meus papeis, que sou frágil, estará comprando uma ideia equivocada de mim.’