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Luiz Carlos Merten

10 Novembro 2008 | 16h03

Cheguei aqui no jornal, hoje, e tinha entrevistas por fazer, textos para redigir, tudo já de olho na cirurgia que deve ser na quinta, não mais amanhã, e eu quero deixar material pronto sobre não sei quantos filmes que vão estrear. Na sexta, antes de viajar para Minas, entrevistei a diretora mexicana de ‘Sob a Mesma Lua’ e achei o papo com Patricia Riggen muito interessante. Tem também os textos e entrevistas com Guel Arraes, Selton Melo, Wagner Moura, Letícia Sabatella, sobre ‘Romance’, ‘Feliz Natal’ e ‘Vicky Cristina Barcelona’ etc. É muita coisa, mas faço tudo isso feliz. Nesse quadro todo, recebi um telefonema do Ovadia me informando da morte de Dulce Damasceno de Brito, ocorrida ontem. Dulce sofria há 20 anos de Mal de Parkinson. Foi definhando e ultimamente, como me disse o Ovadia, não tinha força nem para folhear um livro ou revista, mas a cabeça continuava lúcida e, felizmente, ela tinha o amigo Alfredo Sternheim, que escrevia para a ‘Set’ as colunas que Dulce lhe ditava. Nunca fui amigo e, menos ainda, íntimo de Dulce damasceno de Brito. Cumprimentava-a, alguma vez a entrevistei – por ocasião do lançamento de algum livro -, mas nunca houve clima para uma proximidade maior. Sempre achei interessante sua trajetória. Aos 15 anos, Dulce já era jornalista e, aos 17, embarcou para Hollywood para entrevistar os galãs que a fascinavam, especialmente o Gregory Peck. Dulce foi a primeira correspondente brasileira em Hollywood e filtrou o olhar de todo o mundo que lia ‘Cinelândia’ nos anos 50. Colonizada, deslumbrada? Talvez, ou não, porque Dulce escrevia da perspectiva daqui e a Hollywood que ela conheceu e os astros e estrelas com quem conviveu são aqueles que fazem parte da lenda – mitos que evocam uma Hollywood real e imaginária, uma Hollywood dos anos de ouro e de clássicos que fazem parte do nosso imaginário. Acho que seus livros ‘Lembranças de Hollywood’ e ‘Hollywood Nua e Crua’ são reveladoras do esplendor e decadência do cinema norte-americano. Já me ocorreu de, nessas junketts, passeando no Hollywood Boulevard, pensar nela e dizer comigo que cheguei tarde e a Dulce, sim, estava lá quando valia a pena.