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Dr. Estranho!

Luiz Carlos Merten

25 Outubro 2016 | 15h16

Cumberbatches ou Cumberbitches? Há um culto ao ator Benedict Cumberbatch. As oficiantes são predominantemente mulheres. Não conheço muitos homens – nem gays – que idolatrem ‘Benny’. Meu problema com ele são os olhos. Cinzentos, dão a impressão de vazados, e eu rezo na cartilha de Nicholas Ray – cinema é a melodia do olhar. Benedict só muito pontualmente me convence. O personagem tem de ser estranho, como o irmão lesado de Álbum de Família, de John Wells, com Meryl Streep e Julia Roberts. Justamente, Strange. Dr. Estranho. Assisti agora pela manhã ao filme da Marvel. Sou meio bombástico. Gostei bastante. Por uma vez, Benedict Cumberbatch me convenceu integralmente. Proponho sua candidatura para o Oscar. A Academia tem de parar de selecionar todo ano Eddie Redmayne, ignorando todo o restante. ‘Eddie’ pode ser maravilhoso como Stephen Hawking – A Teoria de Tudo -, mas é inqualificavelmente ruim na fantasia dos irmãos, agora irmãs, Wachowski, O Destino de Júpiter. Tirando seus heróis atormentados – a trânsgenero de A Garota Dinamarquesa -, ele não tem noção de como dizer um texto não realista, ou naturalista. Minto – ele também é ótimo como o revolucionário de Os Miseráveis, na verdade, seu melhor papel (para mim). Mas, enfim, volto a Dr. Estranho. Acho que é o melhor filme de super-herói que já vi, tirando os de Christopher Nolan, os Batman, e Zack Snyder, Superman, que já vi, embora, tecnicamente, tenha minhas dúvidas de que Dr. Strange, mesmo integrando o universo Marvel, seja super-herói. O filme me levou de surpresa em surpresa. Confesso que não sabia nem dirigiu. Foi outra surpresa ver na tela o nome de Scott Derrickson. Conheci-o na junket de O Exorcismo de Emily Rose, que me parece um dos melhores, senão o melhor, filme da tendência, incluindo o de Williasm Friedkin. Não me impressionei muito com A Entidade nem com Livrai-nos do Mal, mas o remake de O Dia em Que a Terra Parou, mesmo não me satisfazendo integralmente, me intrigou muito. Dr. Estranho fez todo sentido, para mim, à luz desses filmes. Escolhas morais, mistérios teológicos, poder da mente. Dr. Estranho me pareceu a síntese perfeita de Emily Rose com Klaatu, de The Day the Earth Stood Still. Sei que os cultores de HQs e super-heróis têm uma visão muito xiita de seus preferidos. Li outro dia um livro bem interessante de um autor brasileiro, Batman e Superman, ou Batman contra Superman, como o filme – teria de pesquisar para descobrir o autor, que é brasileiro, e de Santos. Ele não gosta dos filmes de Zack Snyder pelos mesmos motivos que eu amo, mas sua análise me fez compreender o ponto de vista do outro, e respeito. Eu vejo os filmes de super-heróis como vejo qualquer outro filme de autor, tentando saber popr que o diretor o fez, e como se enquadra em sua ‘obra’. Azar de quem não considera Scott Derrickson um autor. Eu considero, e não é de hoje. E Dr. Estranho ainda tem o elenco – além de Benedict, Rachel McAdams, Chiwqetel Ejiofor, Mads Miklelsen e Tilda Swinton. Eu, às vezes, quando vejo Tilda, lembro-me de Derek Jarman. Em 1991, em Veneza, meu primeiro festival internacional, ela foi melhor atriz por Edward II. Entrevistei-a, e a Derek. Ambos eram ligados à contracultura. Movimento gay, punks. Derek morreu dois anos depois, de aids. Tilda virou estrela em Hollywood, rainha dos blockbusters, sem renegar o passado. Alguns diálogos entre Benedict Cumberbatch e ela tocam o sublime. Devem ter representado diante do green screen. Nos levam na sua viagem além da imaginação.