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Luiz Carlos Merten

13 Junho 2011 | 18h52

Confesso que estou… Chocado? Impressionado? Continuo em casa, de  molho, fazendo meu material para o ‘Caderno 2’ – não nasci para trabalhar assim; adoro a redação – e vendo TV paga em tempo integral. Levanto, ligo a TV e nem desligo mais. Fico zapeando. De manhã cedo, nem me lembro mais que canal apresentava ‘Doze Homens e Uma Sentença’, não a original, de Sidney Lumet, mas o remake de William Friedkin, feito 40 anos mais tarde. Assisti ao filme de Lumet em Cannes, quando?, há dois anos, na versão restaurada que Jane Fonda foi apresentar em Cannes Classics. Vi depois a peça, na montagem de Eduardo Tolentino, bem boa e ainda com o último papel de José Renato. O filme de Lumet continua bom, mas é um tanto chapado e o visual em preto e branco parece hoje estilizado. Gostei mais da versão colorida de Friedkin, que vi hoje. A cor agrega ao realismo e o filme todo é muito mais rico em detalhes. Friedkin fez mudanças muito sutis no texto – pequenas observações, que quase passam despercebidas, coisas que suprimiu ou mudou de lugar. Jack Lemmon é um substituto perfeito e, talvez, melhor ainda para Henry Fonda. Apesar de ter virado astro nos filmes de Billy Wilder, Lemmon foi uma das encarnações mais perfeitas do homem comum (a mais?) em, Hollywood. E não apenas ele. Friedkin recorre a um podereoso elenco de veteranos. O aristocrático Hume Cronyn, o amargurado George C. Scott, que meio que lidera o grupo, internamente, perla condenação do acusado, da mesma forma que Lemmon vai desmontando os argumnentos, instalando a dúvida. Quando Scott explode no final,  sua revolta não é contra o acusado, mas contra o próprio filho, de quem ele virou inimigo e com aquem não fala há 15 anos. Em sua última investida pela condenação, ele diz que sente as facadas no seu corpó e Lemmon tedm de lhe dizer – ‘Mas ele (o acusado) não é seu filho.’ O desfecho é maravilhoso. Henry Fonda sai para a luz no fim do clássico de Lumet. O grupo dispersa-se por meio de lentas fusões na versão de Friedkin e ele conclui com George C. Scott avançando lentamente naquele corredor meio sombrio. Achava bem interessantes os filmes de Friedkin no começo da carreira dele. Depois de ‘O Exorcista’, ele meio que perdeu o rumo,  mas sua fase mais recente é muito interessante, marcada pela experiência operística e pela preocupação exacerbada pelos aspectos malignos da vida social. Lamento muito ter perdido a exibição de ‘Cruising’, Parceiros da Noite, em Cannes Classics, neste ano. O filme foi taxado de homofóbico no começo dos anos 1980, mas talvez não fosse o homossexualismo, em si, que estivesse perturbando Friedkin. São casais heterossexuais não são menos complicados, dopentes mesmo. Sei que gostei muito de ter visto e (re)descoberto o ‘Doze Homens e Uma Sentença’ do diretor. E ainda existe uma terceira versão, feita por Nikita Mikhalkov, ‘Doze’. Esse Mikhalkov foi o próprio ‘sol enganador’. Talentoso, fez filmes de qualidade, mesmo que eventualmente supervalorizados, até virar o czar o cinema russo na era Putin. ‘Doze’ usa o confronto dos jurados para espelhar a miséria da Rússia pós-comunista. Pelos relatos que a gente ouve de sua ligação com o poder e tráfico de influência, ele é que devia estar em cana.