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Douchet e o Pagador de Promessas

Luiz Carlos Merten

11 Junho 2017 | 09h37

O post vai ser longo, antecipo. Cá estou, de novo, em São Paulo. Algumas notícias esparsas. Tentei ver Real – O Plano por Trás da História na quarta-feira, após a coletiva do Varilux na Aliança Francesa. No dia seguinte, iria para o Rio, com uma programação corrida – filmes, entrevistas etc. Corri ao Belas Artes para ver o filme de Rodrigo Bittencourt. Havia gostado de Totalmente Inocentes, tenho de admitir. Sessão única de Real, 14 h. Estava cancelada. Me disseram, na própria bilheteria, que foi um fracasso monumental – um, dois espectadores por sessão, às vezes nenhum. Gostaria, mesmo assim, de ter visto. Também ainda não vi Mulher Maravilha, sobre o qual tenho ouvido muitas coisas boas, e espero que seja melhor que A Múmia, pior filme de Tom Cruise. (Saudades de Brendan Fraser… Aliás, o que houve com esse rapaz? Outro dia fui fazer sei lá que pesquisa na internet e apareceu uma lista meio Cronenberg, sobre gente que fez tantas intervenções no próprio corpo que virou monstro. Lá estava o nome dele e eu, morto de medo, tentei abrir o link, mas a rede recusou. Fico com o Brendan Fraser de Deuses e Monstros e A Múmia.) E volto a Jean Douchet, A Arte de Amar. Para Jean Douchet, criticar deve ser um ato de amor. O povo da concorrência, sempre atrás dos defeitos, para impressionar, poderia adotar L’Art d’Aimer como referência. Tomariam um choque. Estou tendo contato com os textos de Douchet mais de 50 anos depois. Já disse que era um dos críticos preferidos, talvez o preferido de Jefferson Barros, que foi tão importante para o pensamento cinematográfico do Rio Grande do Sul nos anos 1960. Douchet, naquela época, amava Renoir, Bresson, Visconti (sim!) e os grandes de Hollywood – Hitchcock, Lang, Preminger. Está na ativa até hoje. Foi homenageado em Cannes com a exibição de documentário sobre ele. Seu texto sobre Exodus, dando conta da apresentação do filme no Festival de Cannes de 1961 é deslumbrante. Finalmente, encontrei alguém que, como eu – nem Chris Fujiwara, em seu admirável estudo sobre o genial Otto, escreve isso -, ama a cena da confissão de Sal Mineo, quando ele conta, pequeno judeu polonês o que fazia nos campos de extermínio, para sobreviver. “Não é somente sua verdade dolorosa que confessa o jovem judeu, mas todo o sofrimento e infelicidade de uma raça.” Só o rosto de Sal Mineo, iluminado na gigantesca tela escura – a Panavision, que Preminger amava. Douchet diz que a cena supera, em intensidade, Noite de Neblina (de Alain Resnais), talvez sua única referência, na época. Eu juro que me lembrei da cena, a propósito de O Filho de Saul, paras pensar comigo como Preminger era melhor. Mas, enfim, Douchet faz/fez a cobertura dos grandes festivais, para Cahiers du Cinéma, por volta de 1960. Buñuel, Viridiana, Palma de Ouro em Cannes, 1961. “Buñuel é um autor, mas não um metteur-en-scène, exceto por momentos. Fica sempre preso ao símbolo, incapaz de se apagar diante das coisas” (como Preminger, agora sou eu que ascrescento). E Resnais, O Ano Passado em Marienbad, Leão de Ouro em Veneza, 1961. “Marienbad é uma versão moderna, talentosa, inteligente e muito bela de Caligari.” Se Robert Wiene inventou o caligarismo do espaço em seu manifesto impressionista, Resnais (e o roteirista Alain Robbe-Grillet) criam um caligarismo do tempo, que Douchet deplora. Interessante… Ao contrário de Hiroshima, que é um dos filmes da minha vida, nunca gostei muito de Marienbad, apesar da beleza das imagens, e de Delphine Seyrig. Mas o melhor é a cobertura de Douchet parta Cannes 1962. Muitos elogios para Boccaccio 70 (o episódio de Visconti, O Trabalho), para Preminger sempre (Advise and Consent, ou seja, Tempestade sobre Washington), Bresson (Joana d’Arc) e Satyajit Ray (A Deusa). Duras críticas a Michael Cacoyannis (“A crer no que andam dizendo sobre Electra, os colegas nunca leram Eurípedes; o que o filme tem de bom é o texto”) e Antonioni (“O Eclipe bem poderia ser dele; todos os tiques do autor – e Deus sabe como ele os têm – explodem com indulgência”). Sempre ouvi, no Brasil, principalmente, a versão de que o júri daquele ano premiou O Pagador de Promessas porque não conseguia se decidir entre os grandes da competição. Douchet me forneceu outra versão. Vai na contracorrente. Demole os grandes, que osd críticos pequenos têm medo de encarar. E sobre o filme de Anselmo Duarte – “Um tom neorrealista, La Parole Donnée (título na França) é um filme que permite esperar o nascimento de uma potência cinematográfica.” O Cinema Novo, com a câmera de Chick Fowle no tripé?