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Cultura » Dostoievski, ou Brooks?

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Luiz Carlos Merten

16 Julho 2011 | 10h24

No ‘Dicionário de Cinema’, resumindo o homem e a obra, Jean Tulard diz que Richard Brooks, em seus sets, ao fim de cada cena filmada, não dizia ‘Corta!’, mas ‘Obrigado’. Será mesmo? Consegui localizar o livro ‘Tough as Nails – The Life and Films of Richard Brooks’, de Douglass K. Daniel, que procurava em busca de informações sobre ‘Os Irmãos Karamazov’, que está saindo em DVD pela Versátil. O filme não foi um projeto do próprio Broooks, mas do produtor Pandro Berman, que havia lido o livro em 1946 e até encomendado um roteiro aos irmãos Epstein, que escreveram ‘Casablanca’, o clássico romântico de Michael Curtiz. Brooks, como diretor contratado da Metro, foi escalado pelo estúdio. Em 1957, quando começou a trabalhar na adaptação do romance de Dostoievski, ele não estava nada contente. Preferiria estar adaptando ‘Lord Jim’, de Joseph Conrad, mas, para isso, teve de esperar até 1965. Não foi fácil para Brooks encontrar seu tema nas quase mil páginas do livro. Como ele disse, ‘Karamazov’ poderia ser sobre tudo – crime, religião, relações conflitivas entre pais e filhos, amor, culpa, redenção e muitas coisas mais. Douglass K. Daniel cita dois eventos que complicaram ainda mais a tarefa do diretor, que se recusou a usar o roteiro dos Epsteins. Humphrey Bogart estava agonizando, de câncer no estômago. Lauren Bacall não perdoava Brooks, amigo do peito de Boggie, por haver desertado da casa. A contragosto, Brooks foi fazer uma visita. Bogart teve uma crise de vômito. O mal-estar do visitante era tão grande que Boggie, gentilmente, pediu-lhe que fosse embora e depois comentou com a mulher. ‘Algumas pessoas não têm estrutura para lidar com a doença.’ Na mesma época, Brooks divorciou-se, encerrando um casamento de 11 anos. O homem que dizia ‘Obrigado!’ nos sets foi acusado pela mulher de gritar com ela diante dos filhos. Ah, a natureza humana. Quando a Metro confirmou que ‘Os Irmãos Karamazov’ estavam em produção, imediatamente surgiram rumores de que Marlon Brando e Marilyn Monroe fariam Dimitri e Grushenka. Segundo Daniel, nunca foram considerados para os papeis, mas Marilyn realmente gostaria de fazer Grushenka, mas era um mito sexual e ninguém, nem Brooks, conseguia vê-la numa parte tão difícil. Brooks lutou quanto pôde para rodar  ’Karamazov’ na Rússia. A Metro confinou-o no estúdio. A estação de trem é a mesma vista em numerosos filmes anteriores. Muitos críticos acusam o cineasta de haver edulcorado Dostoievski. Ele certamente não fez uma adaptação fiel nem tentou transpor o livro para a tela. Fez outra coisa, e essa outra coisa é um filme muito bom de Richard Brooks. Embora a Metro tenha vetado o diálogo do Grande Inquisidor, dizendo que não se podia retratar a religião daquele jeito, a essência do escritor está presente. A sensualidade e a culpa – ‘Quem nunca quis matar seu pai?’, brada Ivan Karamazov. De todos os temas de Dostoievski, Brooks escolheu o que lhe era mais afim, a segunda chance. Yul Brynner é Dmitri, Lee J. Cobb faz o pai, Fyodor, e Maris Schell é a amante do pai, por quem DImitri se apaixona, Grushenka. O pedido de perdão é mais Brooks do que Dostoievski, mas é emocionante. Tudo bem, ‘Karamazov’ é um monumento da literatura e o maior livro já escrito, como sustentava Freud. Mas Brooks é um autor, em outra mídia. Nunca vi um crítico reclamar das liberdades que ele tomou com Tennessee Williams, ou com Frank O’Rourke, o autor de “A Mule for the Marquesa’, que está na origem de ‘Os Profissionais’. Devem considerar que, comparativamente, são material de segunda. Tenmho de acrescentar que não vi ‘Karamazov’ na estreia, mas alguns anos depois, numa reprise. Na época, já havia visto ‘Exodus’, de Otto Preminger. Amo o filme de Preminger e, para mim, mais do que sobre a fundação do Estado de Israel, é sobre o embate entre os homens e as instituições. A chave do filme é o uso de métodos terroristas por parte dos judeus. O personagem que mais me fascina é o velho terrorista, tio de Ari (Paul Newman). Tio Akiva fundou o Irgun e carrega na pele, no rosto, as marcas da clandestinidade, que também pode ser vista como destruição interna – como Tom Tryon, no desfecho de ‘O Cardeal’. O que isso tem a ver com ‘Karamazov’? O ator. David Opatoshu, que faz Akiva, tem um papel similar em ‘Karamazov’. Ele faz Snegyriov. Tenho até medo de (re)ver ‘Karamazov’. No meu imaginário, é um belo Brooks e eu estou disposto a defendê-lo também como adaptação de Dostoievski.

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